Outliers – Fora de Série, de Malcolm Gladwell

Li recentemente o livro Outliers, de Malcolm Gladwell.

Ele trata sobre pessoas que alcançaram o sucesso de forma intensa, muito maior do que os sucessos cotidianos. A intenção do livro era mapear as condições necessárias para que determinados indivíduos conseguissem explodir em suas trajetórias profissionais, enquanto outros não.

outliers

O sucesso, segundo Gladwell, depende de duas condições básicas: qualidade profissional + condições externas.

A qualidade profissional é fácil de entender. Gladwell fala nas 10 mil horas necessárias para atingir a maestria em um determinado ofício. Para escrever bem, por exemplo, preciso praticar um bocado grande. Uns três ou quatro anos de dedicação intensa podem levar a esse tempo, mas como enrolo mais do que deveria, é provável que eu tenha levado mais do que isso para alcançar essa marca.

(Seria tão bom se tivéssemos uma ficha de personagem com valores para nossas habilidades.)

Aproveitando o comentário sobre habilidades, li no site do Oliver Emberton uma dica legal: o importante para o jogo da vida não é ter uma habilidade superevoluída, mas sim combinar diversas habilidades para alcançar oportunidades diferentes.

Achei genial.

Não basta ser bom em escrever, por exemplo. Eu preciso também ter algum trato social para conhecer e cativar as pessoas que podem me publicar. Também seria importante conhecer um pouco de psicologia para construir personagens verossímeis e complexos. História e geografia são úteis para a caracterização cultural do ambiente… E por aí vai.

Quando Gladwell fala de condições externas é que o bicho pega.

O exemplo do Bill Gates é bastante sugestivo: quando criança, a escola em que ele estudava tinha um computador e ele participava do clube de informática, tendo acesso a praticar coisas que ainda eram impossíveis para outros jovens da idade dele. Dessa forma, quando apareceram oportunidades para pessoas com conhecimentos relacionados a computadores, ele já tinha um belo caminho percorrido.

Ou seja, muito do sucesso de Bill Gates dependeu de ele ter nascido onde nasceu na época em que nasceu. Fosse dois ou três anos mais novo, não teria acesso ao computador. Fosse mais velho, teria perdido a oportunidade de praticar e se envolver por tempo suficiente para que aquela habilidade se tornasse relevante.

Uma visão determinista do sucesso?

Enquanto lia, fiquei mordido com a sensação de que Gladwell estava adotando uma postura determinista: nascendo em tal lugar e em tal época, as coisas poderão acontecer para você. Do contrário, não.

Contudo, é possível pensar nessas condições como algo que temos alguma condição de manejar.

Vou usar novamente o meu exemplo: sou escritor e tenho desenvolvido minha habilidade de escrever. Essa é a habilidade profissional. Vim para São Paulo porque aqui posso conhecer pessoas do universo editorial com mais facilidade e entrar de cabeça nesse mundão cultural que a cidade representa. Essas são, espero, as condições externas. Além disso, escrevo sobre temáticas LGBT, o que rezo muito para que seja um segmento cada vez mais procurado e lido (e bem sabemos como carecemos de bons escritores e boas escritoras na área).

No meu caso, mudar para São Paulo foi uma tentativa de modificar as condições externas da minha experiência como escritor. Em Goiânia eu tinha uma vida organizada e estava melhorando minhas habilidades, mas percebi que as chances de entrar em contato com editores era menor, já que o Centro-Oeste não está bem inserido ainda no mercado editorial brasileiro.

Como aproveitar as ideias de Outliers?

Há algo que desejamos fazer de nossas vidas? Então precisamos pensar qual é melhor jeito de alcançarmos esse objetivo, ou no mínimo de nos direcionarmos para ele.

Não temos controle nenhum sobre como nem onde nascemos. Família, localização, época, tudo isso está fora do nosso alcance consciente. Chegamos ao mundo com um pacote de condições pré-selecionadas. O que podemos fazer é trabalhar o potencial de mudança que cada uma traz.

Ai, é mais fácil para os outros do que para mim. Para mim tudo dá errado. Minha vida é um saco. Não tenho dinheiro para fazer  mudanças agora.

Sim, sim, o mundo não é justo e a gente já sabe disso. É justamente sobre isso que Outliers trata, aliás: as condições prévias necessárias para que um sucesso absurdo ocorra. A primeira condição é: a pessoa precisa ter tempo para aprimorar suas habilidades. Como é evidente para qualquer ser pensante, tempo é um bem caro e quem nasceu em famílias com maiores condições financeiras terá mais tempo livre para investir.

Isso não quer dizer que não possamos caminhar em direção ao que queremos mesmo que as condições iniciais não sejam favoráveis.

O que podemos fazer é sempre caminhar. “Faça o que fizer, só não pode ficar parado”, diz minha professora de escrita criativa. Se não tem condições de perseguir o sonho, o primeiro passo é criar essas condições. Se já as tem, o próximo passo é parar de mimimi (quem me conhece sabe que sou o rei do mimimi) e buscar caminhos que nos aproximem do que desejamos.

Meu seriado favorito de toda a vida, Being Érica (link para o primeiro episódio legendado aqui!), tem uma personagem coadjuvante que trabalha muitas horas por dia, mas escreve “faça chuva faça sol” todas as noites. Quando a vi falando isso pela primeira vez, fiquei impressionado com ela e ao mesmo tempo chateado comigo. Poxa, se eu quero ser escritor, por que não estou fazendo o mesmo, escrevendo nem que seja dez minutos por dia?

Nasci com condições boas para me dedicar à literatura. Deixar de reconhecê-las e ampliá-las seria burrice.

Controlando as expectativas

Saber que não temos como controlar as condições externas pode ser dolorido e difícil de digerir, porém ao mesmo tempo nos liberta da responsabilidade plena por nosso sucesso.

O que nos cabe é seguir caminhando sem visões encantadas sobre como o mundo deve reagir aos nossos desejos. A realidade tem a sua própria lógica e ela é muito mais complexa do que podemos conceber.

Isso não significa, é claro, que não possamos dar uma empurradinha com as habilidades que desenvolvemos.

Aliás, talvez essa seja uma das habilidades mais importantes para os dias de hoje: controlar as expectativas. Ou, em outras palavras, enxergar a realidade sem ilusões.

Para mim, isso significa entender que talvez meu sonho não se realize. Talvez nenhuma grande editora me publique e minhas letras nunca cheguem aos olhos do grande público. Talvez eu precise trabalhar em algum emprego que não desejo porque o dinheiro acabou e preciso me sustentar. Há muitos talvez no caminho, vários deles contrariando meus desejos.

Eu posso me apegar à realidade que desejo e sofrer se ela não acontecer, ou posso respirar fundo, meditar e procurar um jeito de continuar fazendo aquilo que me dá um tesão profundo: escrever.

Escrever, para mim, é continuar caminhando.

Sempre que penso nessas trajetórias na vida, lembro de um trabalho lindo do Zen Pencils (traduzido pela galera do Complexo Geek). Viver o caminho é mais fácil se o entendermos, mas nem de longe mais controlável.

Fico curioso em saber como andam as caminhadas de quem me lê…

4 comentários em “Outliers – Fora de Série, de Malcolm Gladwell

  1. Hello, Tales! Assisti ontem a um documentário sobre o budismo e lembrei de você. Achei fantástico! Tem um trecho em que descreve como Buda alcançou a iluminação: ele se sentou embaixo de uma árvore e não saiu de lá até conseguir o que queria. Acredito que seja mais ou menos parecido com a escrita, sente-se em frente ao computador ou ao caderno, whatever, e só saia de lá até conseguir escrever.
    Abraços

    • Engraçado isso, Ben… Um amigo disse que tinha uma técnica para fazer fluir a escrita acadêmica. Perguntei qual era. Ele respondeu: senta e escreve, uma hora as ideias se resolvem. É tipo sentar à sombra da árvore.
      =)

  2. És um felizardo! Com medos, receios, expectativas mil, projetos de vida grandiosos ( para alguns quem sabe, gananciosos ), mas ainda assim és um felizardo. Que desde cedo almejas esse caminho, é certo ! Então há muito tempo estás tateando na procura dessa realização. A tua ida para Goiânia foi a tua carta de alforria. Foi o início da tua procura por condições externas. O dom, já se fazia presente mas quem quer mais, precisa buscar mais. Abristes o teu leque de possibilidades mas de repente, já estava tão pequeno que resolvestes buscar mais, daí São Paulo ! tens muitos “mimimis”, mas assim mesmo estás caminhando , passos curtos, cautelosos, ou nem tanto. Isso é detalhe pequeno. Se amanhã não chegares ao que planejou cem por cento, terás a certeza de que tentou. E se tentou, foi bem além dos sonhos. ´Se a diferença entre o sonho e a realidade é a atitude, nada estás deixando a desejar. Bjo

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