Objetos que nos prendem

Quando decidi que começaria a morar em São Paulo e correria atrás dos meus sonhos, ninguém me disse que toda mudança envolve considerar também o que fica para trás.

A gente olha para o futuro, planeja os caminhos para alcançar os objetivos e se felicita por estar finalmente caminhando rumo à vida sonhada. Tudo é muito bonito enquanto só olhamos para frente.

Acontece que quanto mais tempo passamos em um lugar, mais estruturada fica a nossa vida, tanto material quanto emocionalmente.
Quando partimos, precisamos desestruturar tudo.

Bens materiais

O que fazer com a geladeira, o fogão, a máquina de lavar, os livros?

Levar comigo seria uma resposta se eu estivesse indo a São Paulo com lugar certo para morar. Contudo, não estou. Sem saber onde morarei, a solução está sendo vender ou doar meus bens.

Não é por nada que falam em criar raízes. Tudo o que trazemos para dentro de casa vai se instalando e fazendo parte de uma rotina tão profunda que parece que esteve sempre ali. Eu não sou dono dos móveis ou dos ursinhos. Eu sou os móveis e os ursinhos, eles contam de mim tudo ou mais do que tenho para contar deles.

Falando assim, parece que precisamos de muito para viver.

Aproveito esse momento para limpar de minha vida o hábito de acúmulos desnecessários. Livros que eu não leio, por exemplo, sempre tive aos montes. Entrar na livraria e comprar algo sempre foi um prazer muito mais relacionado ao acúmulo de livros do que à leitura.

Ter uma estante cheia fala bem da minha cultura, eleva o ego.

Ir à biblioteca, alugar um livro por uma semana, lê-lo e devolvê-lo não mostra ao mundo o quanto eu sou inteligente, mas geralmente significa que lerei ao invés de apenas ter um livro. Uma bela diferença, não?

Doei roupas aos montes e vendi quilos de livros, porém ainda não consegui reduzir minhas posses apenas ao que caiba em uma ou duas malas (ou aos 23kg de bagagem do avião).

Enquanto escrevo isso, penso nos livros que selecionei para guardar. Alguns deles têm valor afetivo pelas informações e imagens que carregam, mas sei que nunca os abrirei novamente por mais de minuto. Gosto deles pelo espanto e admiração que causam em quem entra na minha casa, não pelo conteúdo.

Isso já diz muito de mim, não é mesmo?

Desapegando no futuro

Eu quero ser livre.

Parte desse exercício de mudança ao qual estou me propondo é justamente me desprender física e emocionalmente não só de Goiânia, mas de qualquer coisa que me obrigue a estar em um lugar específico.

Vou para São Paulo cultivar experiências como escritor e ampliar as possibilidades de escrever mais e melhor. Isso não significa que eu necessite ficar apenas em São Paulo.

Meus objetivos para 2014 são realizáveis em qualquer lugar. Talvez seja um momento apropriado para explorar essa vida nômade.

Eu havia selecionado 55 livros para viajarem comigo. Escrevendo este texto, percebi que não preciso deles em minha vida, não preciso de objetos para falar de mim.

Reduzi-os agora a 30. Restaram aqueles que penso utilizar no futuro como escritor ou editor. Os demais serão vendidos ou doados, junto com os mais de 50 que não consegui vender ainda (mas que já estavam destinados ao abandono).

Os livros dos quais eu não queria me separar
Os livros dos quais eu não queria me separar

Cada um tem o seu tipo de objeto de apego. O meu são os livros. Sofro por me desligar deles, como se uma parte de mim fosse jogada fora.

Meu único consolo é pensar que depois deles estarei mais próximo da liberdade que almejo.

Ao menos assim espero.