A campainha quebrou o silêncio.
Jonas pousou o exemplar em alemão de Humano, demasiado humano no criado-mudo e consultou o relógio: nove e meia. Levantou da poltrona, acendeu a luz da sala e parou em frente à porta para a rua. Respirou fundo, ensaiando mentalmente o que precisaria dizer, e abriu a porta.
Guilherme entrou rápido, a cabeça baixa e os braços cruzados com força. Com a mão na porta ainda aberta, Jonas mirou os olhos inchados de Guilherme, cujos lábios tremiam. Sua voz era quase um miado:
– Não faz isso, Jô… Eu te amo tanto.
Jonas puxou o ar com força e desviou o olhar para a rua, um frio descendo o peito rumo à barriga. De novo aquela conversa.
– Eu já fiz. – Respondeu Jonas, o coração batendo pesado. Ouvia o choro de Guilherme às suas costas. – Só amor não é o suficiente.
Guilherme chorou alto, sua respiração ofegante e ruidosa consumindo o espaço na casa. Com passos certeiros, foi à cozinha.
Jonas suspirou e seguiu Guilherme. Entrou na cozinha e tateou a parede em busca do interruptor. De luz acesa, viu-se a um passo do ex-namorado, cujo olhar continuava carregado de tristeza, mas trazia algo mais.
Seria ciúme?
A faca entrou na barriga de Jonas uma, duas, três vezes. Sem conseguir respirar, Jonas tentou conter com as mãos o sangue que esguichava quente. Tudo o que via estava tingido de vermelho, suas mãos, a camisa, o armário de utensílios. Ouviu a porta da sala bater e passos apressados se afastando rua afora.
E então o silêncio voltou à casa.