Lave a louça

Sábado fui com uma amiga a uma palestra sobre budismo. Digo “palestra” porque chamaram assim, mas estava mais para um encontro comunal: todo mundo sentado em almofadinhas distribuídas por um chão acarpetado, os calçados deixados do lado de fora, muitos sorrisos e gestos tranquilos.

A fala do palestrante foi inspiradora, dedicada a apontar como nossa mente cria ilusões e nós nos apegamos a elas com força e determinação, assim gerando sofrimento. Sofremos porque nos apegamos a ilusões.

Saímos, minha amiga e eu, conversando sobre o encontro e resolvi compartilhar uma pequena fábula zen budista que eu conhecia.

Um discípulo foi ao mestre em busca de orientação para alcançar a iluminação. O mestre perguntou: “você já almoçou?”, e o discípulo respondeu que sim. “Então lave a louça”, disse o mestre, sintetizando a vivência zen.

Lave a louça funciona aqui como um imperativo para fluir com a vida, fazer parte dela, agir. No domingo, minha amiga e eu acordamos e passamos um bom tempo conversando.

Em dado momento, ela reclamou que sentia falta de sair com mais pessoas, que sempre pensava em convidar amigos e conhecidos para sair, mas nunca o fazia. Perguntei a ela quem seria uma pessoa que ela convidaria. Ela pensou e deu um nome.

De pronto, arrastei-a até o computador e pedi que enviasse uma mensagem para a dita pessoa fazendo um convite qualquer.

Lavar a louça é um convite para que a vida aconteça. A louça está lá e sempre estará, não importa se queremos pensar no tipo de sabão adequado, na esponja mais eficaz, ou se começaremos pelos copos ou pelas panelas. A vida continua e o jeito é fazer parte dela.

Minha amiga fez três convites para três pessoas. E em questão de minutos, tínhamos um almoço para ir (e já estávamos atrasados). Fomos, encontramos velhos amigos e conhecemos pessoas novas. Isso porque decidimos abraçar a vida e lavar a tal da louça.

É nesse espírito que estou retomando este site. A louça acumula e assusta, mas preciso começar de algum lugar. A alternativa – ficar parado e refém das minhas ilusões – não é aceitável.