Estuprar não é um direito do homem

Saiu por esses dias o resultado de uma pesquisa que basicamente diz que os brasileiros (65,1%) acham que “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

Merecem. Esse é o verbo utilizado. É como dizer que um casal de homens se beijando na rua merece apanhar e morrer, ou dizer que deixar a porta de casa destrancada é merecer um assalto.

O que esse pensamento faz é naturalizar a violência contra o outro. Estamos num ponto tão complicado da nossa convivência que tomamos por dado que coisas violentas acontecem; com isso, paramos de lutar contra essas coisas violentas e passamos a condenar quem “não se protege” delas.

Gente, perdão pela obviedade, mas agressão física e verbal, assalto e estupro não são coisas aceitáveis. Não são coisas que acontecem e pronto. São coisas que acontecem e a gente vai lá e resolve o problema.

Eu não pretendia falar nada a respeito porque enfim, é tudo tão óbvio que nem deveria precisar de mais gente falando sobre como é idiota quem pensa que são as roupas das mulheres que ditam se ela merece ou não ser estuprada (tipo um prêmio: parabéns pelo vestidinho curto!).

Amores da vida: mulheres são seres humanos, não criaturas que existem apenas para satisfazer os prazeres masculinos (não importa quantos filmes pornôs e novelas tu viu mostrando o contrário).

Então hoje vi uma foto circulando no Facebook e achei pertinente. Abaixo dela traduzirei o comentário que a acompanha, pois acho que diz basicamente tudo o que qualquer ser humano com um mínimo de decência consegue pensar.

Caso a imagem te ofenda, sinto muito, mas há questões a serem resolvidas com relação à tua visão de mundo. Eu defendo a liberdade humana de ir e vir vestido como quiser, mas é claro que não nos entenderemos se a tua visão for a favor de oprimir o próximo…

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No corpo: “ainda não pedindo por isso”

Esta foto foi postada noite passada no Tumblr STFU, Conservatives (algo como “calem a boca, conservadores”). A razão pela qual estou compartilhando não é por causa da foto em si (que já é épica por si só), mas pelos comentários que ela gerou. Uma pessoa escreveu: “é como colocar um vestido de carne, ficar em frente a um tubarão e dizer a ele para não comer você”. A resposta do STFU (em negrito) foi: “Nós (homens) não somos malditos tubarões! Nós não somos animais famintos vivendo de puro instinto. Nós somos capazes de raciocínio lógico e compreensão. Se alguém está cozinhando, não significa que temos o direito de comer. Só porque um banqueiro está contando dinheiro não significa que você ganhará dinheiro de graça. Só porque uma pessoa está pelada, não significa que você pode fodê-la. Você não tem direito ao corpo alheio só porque está exposto. O que há de tão difícil nesse conceito?”.

A resposta é perfeita porque explicita algo que deveria ser óbvio: nós não somos animais. Homens estupram não porque não são capazes de se conter, mas porque desde pequenos são ensinados a fazer o que quiserem com as mulheres.

Há algo de muito errado com a forma como estamos criando nossos homens e culpar as mulheres por isso, sinto dizer, não é a solução.

4 comentários em “Estuprar não é um direito do homem

  1. Postei algo na minha timeline ontem que dizia o seguinte: Estupro é um dos crimes mais terríveis do mundo e acontece numa frequência de minutos. O problema com grupos que lidam com o estupro é que eles tentam educar as mulheres como se defender. O que realmente precisa ser feito é ensinar os homens a não estuprarem.

    E é isso aí mesmo que você disse. <3 Achei legal.

  2. Tales, concordo com você. Existe um problema na criação e no modo como esse gênero “masculino” é exercitado. Não vamos esquecer que dentro de casa, muitas vezes uma namorada ou uma esposa, também sofrem um tipo de abuso. Ele nem sempre tem a ver com a roupa, mas com a imposição do sexo, ou de uma vontade… Não é estupro? Bem não é, mas é um tipo de abuso. A grande perda em tudo isso é a vivência da afetividade e relações mais profundas. Infelizmente a nossa cultura como um todo precisa sair da zona de conforto e arejar, ser visitada por novos ares, e se permitir experimentar algo diferente disso que temos visto e que gera tantas agressões e violência.

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