Cuidar de si é o primeiro passo para amar

Há alguns anos, eu me apaixonei por um rapaz. Ele era inteligente, cheio de vida e nossas conversas nunca terminavam, de tão instigantes. Eu fiquei nas nuvens, flutuando e falando para todo mundo sobre ele, mostrando a sua foto e perguntando “ele é lindo, não é? Não é? Não é?”. E era bem bonito, mesmo.

Um mês depois, ele terminou comigo. Disse que não estava preparado para um relacionamento sério, que precisava pensar, que a vida não vinha sendo exatamente o que ele queria e que precisava explorar outras possibilidades e pessoas.

Eu, como sou essa pessoa evoluída e transcendental, disse “tudo bem, eu te entendo”, porque é assim que a gente reage quando um cara gato, inteligente e carismático termina um relacionamento no primeiro mês.

o-BROKEN-HEART-facebook

Mentira. Eu fui pro Fosso dos Egos Estraçalhados.

A única coisa que eu conseguia pensar era: por que ele não queria estar comigo? Eu não percebia que essa questão não importava; naquele momento, e em praticamente qualquer outro, o que importava é o que eu faria a seguir. A minha vida é a minha história, contada a partir da minha perspectiva. Se a parte mais importante da minha vida são as escolhas de outra pessoa, então há algo de muito errado com a minha própria narrativa.

Dias depois desse término, outro carinha começou a dar em cima de mim. Era um guri feio e que espumava ódio em metade das suas falas (a outra metade era sobre um tipo de “amor” doentio e perverso que toma a liberdade da outra pessoa em troca de… nada). Não era o tipo de pessoa que poderia ser um amigo, mas ainda assim eu namorei com ele por algum tempo. A realidade é que tanto fazia estar com ele ou sem ele, e com ele ao menos eu tinha alguma coisa para preencher meus dias.

Eu não achava que poderia encontrar alguém especial de novo. Na minha cabeça, eu não era bom o bastante para isso, então deveria me contentar com o que aparecesse.

Eu não estava em condições de oferecer a ninguém uma experiência positiva ao meu lado. Pelo contrário, eu estava apenas seguindo um fluxo de acontecimentos sobre os quais eu não tinha nenhuma atuação mais presente, como se não fizesse questão de estar vivo.

evil_love_by_monkeyyan-d4g5vk6

Por isso, semana passada, quando uma amiga me confessou que não conseguia acreditar que amaria novamente, todos os meus alarmes dispararam. De que forma eu poderia usar a minha experiência de vida para auxiliá-la a modificar a percepção que tinha de si mesma? Sim, porque achar que não encontrará alguém significa dizer que não somos bons o bastante para isso.

Sugeri algo que para algumas pessoas parece natural: tratar a si mesma como se fosse sua namorada. A ideia surgiu pronta e foi recebida com um espanto engraçado. Ela disse que ia pensar a respeito e eu não deixei, era pegar ou largar, começar ou nem pensar mais a respeito. Ela aceitou, então indaguei:

– Hoje é teu primeiro encontro contigo mesma, o que tu vai fazer para tornar esse primeiro encontro memorável? Afinal de contas, tu está conhecendo e querendo agradar uma pessoa fantástica. Não é qualquer coisa que vai demonstrar a essa pessoa o quanto tu é especial.

Minha amiga pensou um pouco e decidiu: compraria flores para embelezar o próprio quarto. Como ela é uma artista foda (mesmo que às vezes pareça esquecer disso), o resultado foi esse que mostro no vídeo a seguir. São apenas trinta segundos, mas transmitem o efeito mágico do cuidar de si. Aumente o volume e aproveite:

E esse foi só o primeiro dia do relacionamento da minha amiga com ela mesma.

A única coisa que ela fez, produzindo esse vídeo maravilhoso, foi decidir cuidar de si mesma como cuidaria de alguém que ela ama. Por mais simples que seja e pareça, é algo que esquecemos de fazer. Preocupados como vivemos em lidar com os outros, ignoramos que há uma pessoa que merece tudo de melhor que pudermos oferecer. Essa pessoa, se não for bem cuidada, vai se acostumando a merecer cada vez menos do mundo.

“Nós recebemos o amor que achamos que merecemos”, ouvi num filme. Faz todo sentido. Quando vi esse filme, lembrei-me imediatamente da história que contei no início deste texto: por não cuidar de mim, eu aceitei qualquer coisa, inclusive uma pessoa completamente oposta a tudo que acredito na vida, unicamente porque era quem estava me enxergando naquele momento.

“Ai, Tales, mas isso é egoísmo!”. Não, gente, isso é autonomia. Há quem pense que amar é depender de outra pessoa. Isso, para mim, é amor entre aspas. Da forma que eu entendo, amar é somar, contribuir, dar a mão e caminhar junto, doar-se. Cuidar do outro. Pensando nisso, pergunto: como podemos cuidar de outra pessoa quando não somos capazes de cuidar de nós mesmos? Na pior das hipóteses, isso seria dependência.

Favim.com-danbo-bokeh-dof-love-472189

“Rosas para você”

Ao se dar flores, minha amiga deu continuidade a um processo de se entender como uma pessoa capaz de cuidar de si própria. Mas flores não são o único jeito de fazer isso acontecer. Vale tudo, desde que sirva para lembrar que merecemos carinho: fazer um jantar diferente, assistir ao pôr do sol, levar-se para conhecer um lugar novo ou para experimentar aquele sorvete que tanto queria, colar na parede um papel dizendo “eu sou fantástico”.

O que importa não é a forma que escolhemos para cuidar de nós mesmos, mas sim o processo.

O que você faz, ou gostaria de fazer, para cuidar de si mesmo? Tem alguma ideia? Deixe um comentário, por favor. :)

3 comentários em “Cuidar de si é o primeiro passo para amar

  1. A minha maneira de cuidar de mim mesmo é percebendo o quanto eu estou ou não estou fazendo por outras pessoas (meu esposo, minha família, meus amigos, conhecidos…). Na minha visão, o que importa mesmo neste mundo e cuidar o máximo dos outros… Mas sem nos desvalorizar.

    Não sei se você vai concordar comigo, mas…

    Pelo pouco que você compartilhou sobre o rapaz “inteligente, cheio de vida, gato e carismático”, a impressão que eu tenho é que ele representava muito para você mas não fazia muito por você. Parece que ele não abriu os olhos em nenhum momento para enxergar a pessoa que você foi para ele. Se ele deixou o cara maravilhoso que tinha ao lado para “explorar outras possibilidades e pessoas” então você dever perceber que ele é quem não era bom o suficiente para você. Do que adiante ser inteligente, cheio de vida, gato e carismático, se não tem o bom senso de perceber e dar valor a quem ele tem ao lado dando apoio, companheirismo, sorrisos, amor… SE você deu isso tudo a ele e ele ainda foi “explorar outras pessoas” o melhor que você tem a fazer é certificar-se que você não vai fazer o mesmo com outros. Pessoas não são feitas para serem exploradas e sim cuidadas. Que pena que ele escolheu este caminho.
    Não permitir que pessoas como o tal cara destruam a tua auto-estima é uma boa maneira de se cuidar. Dar o devido valor a outras pessoas e ter consciência disso, nos faz sentir muito bem em relação a nós mesmos.

    O azar foi dele e não teu.
    E você sabe disso. ; )

    • Eu levei um tempo para entender que o azar, na realidade, não era de ninguém… O caminho que ele queria percorrer não me incluía senão como um amigo e não acho que eu tenha o direito de julgá-lo por isso. O maior problema foi que, na época, eu não estava preparado para lidar com uma “rejeição”.

      De resto, concordo com teu comentário :)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *