Escrita criativa (5): mostrar e dizer

Mal planejei os minicapítulos que darão forma ao meu primeiro romance e decidi sair escrevendo. Um pouco afobado, eu sei, já que ainda me seria útil ocupar alguns dias planejando de forma mais detalhada cada personagem, inclusive os secundários. Mas não aguentei, a vontade de escrever foi maior.

Foi quando apareceu um problema: quando escrevo, tenho a tendência a dizer mais do que mostrar.

Todos os livros para escritores que li até hoje sugerem que devemos mostrar mais do que dizer. Mostrar significa dar impressões sensoriais e emocionais do que está acontecendo, enquanto dizer cumpre o papel de passar informações com grande velocidade, mas geralmente sem impacto emocional.

É completamente diferente eu dizer que uma criança morreu num incêndio e eu mostrar que o fogo vinha se aproximando enquanto ela se encolhia sem saber o que fazer, a fumaça entupindo seus pulmões e enchendo seus olhinhos de lágrimas. A experiência emocional está presente em ambos os casos, mas é muito mais fácil se colocar no lugar da criança no segundo exemplo.

Quando eu escrevo, saio acumulando acontecimentos para informar o leitor sobre o que se passou na vida das personagens. Nesse processo, transformo minha história em algo mais próximo de uma notícia do que de uma narrativa literária. Percebi isso há algum tempo, mas ainda não havia encontrado os meios para experimentar minhas histórias de outra forma.

Recorrerei ao livro Writing Fiction for Dummies, que considero um dos melhores livros para quem deseja destrinchar o processo de escrita. Hoje, para falar sobre mostrar e dizer, trarei sete ferramentas que utilizamos para contar histórias. Talvez elas não sejam as únicas ferramentas existentes, mas ter conhecimento sobre elas pode nos ajudar a compreender melhor o que escrevemos e, também, aquilo que lemos.

Ação

Essa é a base da história, aquilo que está acontecendo. É por meio da ação que a narrativa avança, que novos fatos entram em jogo. Ouso dizer que uma história só acontece por meio da ação. Se ninguém toma uma ação e se não existe nenhum tipo de conflito que torne uma ação necessária, não há história.

Idealmente, penso que uma ação (na literatura) é aquilo que instaura ou resolve um conflito, o que por sua vez levará à mudança de um estado anterior. Pensar desta forma é útil porque nos ajuda a diferenciar ações e atividades. Atividades são aquelas coisas que não influenciam na história, mas que podem ajudar a mostrar quem são as personagens. Acender um cigarro com a mão tremendo (de frio, de nervosismo, de Parkinson) é atividade. Dar um tiro em alguém é ação: a história acabou de receber um puxão, algo precisa ser feito para resolver os efeitos desse tiro.

Portanto, a ação sempre dirá respeito a personagens que importam para o leitor. Um vulcão explodindo não interessa. Um vulcão em erupção com magma caindo próximo às personagens que fogem do templo perdido com um tesouro pesado nas mãos, isso sim interessa. Uma nota: nesse caso, o vulcão não agiu. Vulcão é força da natureza, não é personagem. O que torna alguém personagem é a capacidade de agir, de interferir na história.

Diálogo

Esse é um ponto tão legal que merecerá, no futuro, um texto próprio. Diálogo é o que as personagens falam. Como ferramenta de escrita, ela atualiza a ação e acrescenta uma outra voz (a da personagem que diz algo). É, portanto, uma ferramenta extremamente poderosa, pois, se colocada em discurso direto, escapa da narração.

Uma dica do livro Writing Fiction: diálogo é guerra. As linhas de fala não estão lá para ocupar espaço, por mais tentador que isso seja. O diálogo tem a função de fazer a história avançar, então ele é melhor aproveitado quando acontece entre personagens com objetivos diferentes/opostos.

Alguém dizer “eu acho isso” e ser respondido “eu também” não ajuda a história. A não ser que desejemos mostrar a subserviência de uma das personagens, mas creio que há modos mais interessantes de fazer isso por meio da ação.

Emoção interior

Esse é um recurso poderoso. Ele informa o leitor sobre o que uma personagem está sentindo mental e emocionalmente. É poderoso porque ajuda o leitor a se identificar com a personagem, a se colocar em seu lugar. Quando usamos bem a emoção interior, é possível pensar “puxa, eu já passei por isso” e então o que está acontecendo adquirirá outra importância.

Pensemos na criança dentro do quarto em chamas. Ela sente aquele calor ao mesmo tempo que um frio na nuca, a sensação de que algo terrível e muito, muito dolorido, está para acontecer. Nós leitores conhecemos o perigo do fogo e reconhecemos o medo que se espalha ao estarmos em uma situação que parece sem saída. A emoção interior nos ajuda a perceber como a personagem reage aos conflitos. O fogo cercando a criança é um baita problema, uma situação que demanda algum tipo de ação por parte dela ou alguma interferência externa com urgência, do contrário haverá uma morte.

A carga emocional de uma história depende muito do que está em jogo. Se for a vida ou os objetivos de uma personagem, é necessário que o texto nos convença de que devemos nos preocupar com ela.

A possibilidade da emoção interior depende do ponto de vista assumido no texto, algo que também tratarei em algum texto futuro. Por ora basta-nos reconhecer a existência da emoção interior como uma ferramenta útil para alcançar o coração dos leitores.

Monólogo interior

Em uma linha: o monólogo interior é aquilo que a personagem está pensando.

Como a emoção interior, é uma ferramenta que só pode ser usada de acordo com o ponto de vista assumido pela narrativa. Se o texto inteiro segue os passos de uma personagem específica, é estranho que o leitor seja informado sobre os pensamentos de outras. Isso esvazia o potencial de empatia com a personagem cujo ponto de vista foi assumido.

O monólogo interior é tão poderoso quanto o diálogo, já que três coisas revelam uma personagem: o que ela faz, o que ela diz (que pode ser diferente do que faz) e o que ela pensa (que pode ser diferente do que faz e diz, esteja ou não no controle dessas diferenças).

Humanos são contraditórios. Quem nunca se perguntou: “por que fiz isso?”.

Descrição

A descrição dá ao leitor a sensação de como é o mundo no qual se passa a história, como se parecem as personagens etc. A descrição alimenta os sentidos do leitor: a visão (cores, luzes), a audição (sons, tons de voz), o olfato (aromas, fedores), o paladar (sabores, qualidades) e o tato (texturas, temperaturas).

Como as duas ferramentas anteriores, a descrição nos dá a dimensão do universo geralmente a partir das experiências de uma personagem específica (que detém o ponto de vista).

Há uma dica recorrente para escritores que encontro em livros e sites: evitar adjetivos e advérbios. Acho que é Stephen King quem diz que os advérbios são como uma erva daninha, que se deixamos um aqui e outro ali, quando vemos temos o texto inteiro povoado por eles. Uma solução para os advérbios é procurar um verbo mais preciso, mais próximo do que queremos dizer (e que portanto não precise da modificação operada pelo advérbio). O mesmo vale para o adjetivo, que pode ser substituído por um substantivo mais significativo ou por uma metáfora, criando uma imagem mental para aquilo que desejamos mostrar.

Uma história que tenha mais descrição do que ação, ao menos para o meu gosto, é um saco. Muitos leitores gostam de saber a quantidade de rachaduras que existem em cada tijolo da casa, mas eu sigo uma linha descritiva mais econômica. Como leitor, foram inúmeras as páginas de O Senhor dos AnéisA Guerra dos Tronos que eu pulei…

Flashback

As cinco ferramentas anteriores são ótimas para a tarefa de mostrar. O flashback é basicamente um recurso que joga o leitor em algum momento no passado e se utiliza dessas mesmas ferramentas para mostrar algo que já aconteceu, mas que será relevante para o andamento da história.

É um recurso controverso, mas bastante útil se utilizado com parcimônia. O maior perigo na sua utilização é não deixar claro para o leitor qual o momento em que um flashback começa ou termina, o que pode ser resolvido com a inserção de algum tipo de “gatilho”. Por exemplo: o personagem vê uma fotografia, volta ao passado a partir dela e retorna ao momento presente de novo mencionando a fotografia. Isso deixa claro para o leitor que há um recorte no tempo e no fluxo dos acontecimentos.

Não tenho me deparado com muitos livros que utilizem esse recurso, mas penso que é útil tê-lo em consideração como uma possibilidade para revelar acontecimentos passados com o mesmo potencial do mostrar.

Sumário narrativo

Esse é o meu favorito porque é o mais fácil e o mais tentador. O sumário narrativo é o recurso que diz, ao invés de contar. Com ele, grandes pedaços de informação podem ser resumidos rapidamente. O seu problema é o fato de que é distante do leitor, pois ao relatar fatos, não nos conectamos facilmente com as sensações de quem os viveu. Isso diminui a possibilidade de empatia do leitor com o texto.

Isso não quer dizer que o sumário narrativo não deva ser utilizado. Às vezes, ele é um recurso muito útil para condensar informações necessárias ou pontuais. Há momentos em que um retorno ao passado na forma de flashback seria excessivo, então determinadas informações podem ser resumidas. “Ela trabalhou sete anos como enfermeira” dificilmente pediria por um flashback (embora pudesse ser uma informação carregada em diálogos, por exemplo).

Qual é a melhor?

Não existe uma regra sobre qual ferramenta é melhor ou pior. Cada história pode ser contada a partir de uma medida entre elas. O que importa é o escritor temperar seu texto com aquilo que melhor ajude a narrar. A ação costuma ser privilegiada porque é a que mais atualiza a história, sentimos mesmo que ela está avançando a cada nova ação dramática. Isso não quer dizer que um diálogo ou uma descrição bem esquematizados não possam nos levar a interpretações maravilhosas sobre a história que estamos lendo ou, melhor ainda, sobre nossas próprias vidas.

A literatura tem algumas regras, mas elas parecem aceitar exceções a favor de uma história bem contada.