Acordei com minha mãe entrando no quarto, um prato na mão. Café da manhã na cama, pão feito em casa, frutas cortadas, iogurte e um chá quentinho. Depois, assisti a um pouco de televisão na sala. Conversei com meu padrasto. Beijei minha mãe simplesmente porque ela estava por perto. À noite, me arrumei e fui para a festa de aniversário de uma amiga, mas ela não sabia que eu estaria lá. Amizades de dez anos nos pedem alguns esforços.
A reação dela ficará gravada na memória por muito tempo. Cheguei na pizzaria e fui recepcionado pelo dono. Ele sabia da surpresa, então me indicou onde eu poderia encontrar minha amiga. Subi as escadas tremendo de ansiedade. Fico assim quando não sei o que vai acontecer e, bem, eu estava indo fazer uma surpresa – a parte do não saber (o) que vai acontecer é fundamental para todos os lados. Já na escada ouvi a minha amiga falando. Como seria a reação dela? Nos segundos que antecipam qualquer coisa que eu faço, passa pela mente aquele filminho de situações desagradáveis possíveis. E se ela ficasse irritada que eu não avisei, e se ela não gostasse, e se… Entrei.
Ele me viu, disse “ah” e baixou a cabeça para voltar a conversar com alguém. Um segundo. Ela me olha de novo, confirma que não está sendo enganada pelos sentidos e grita, mas grita muito, enquanto vem correndo na minha direção e pula para o abraço. Todo amor do mundo, ou pelo menos todo o amor que cabe em dez anos de amizade sincera, estava naquele abraço.
Abraços, apresentações e reencontros depois, uma certeza: Porto Alegre é uma cidade que me faz muito bem. Aqui está minha família inteira: mãe, padrasto, pai, madrasta, irmão, amigos de cinco, dez, vinte anos. Talvez seja bobo dizer que só percebi isso agora, mas até bem pouco tempo eu não dava tanto valor para o fato de haver sido criado aqui. Como se os 23 anos que vivi aqui tivessem sido deixados para trás quando embarquei na viagem para Goiânia.
Não foram.
Porto Alegre tem algo a me oferecer que cidade alguma no mundo jamais poderá. Eu finalmente entendi como algumas pessoas ficam a vida inteira no mesmo lugar em que nasceram. Sabendo disso, meu namorado ficou preocupado que eu pudesse querer voltar a morar em Porto Alegre. Talvez um dia eu até queira, mas não hoje. Porto Alegre é uma cidade que me recepciona muito bem e que aquece meu coração, mas a minha história está acontecendo em São Paulo.
E o que São Paulo me oferece, Porto Alegre algum consegue cobrir.
Acho justo, pelo bem das metáforas, pensar em Porto Alegre realmente como um porto, um lugar onde estaciono o meu barquinho e desço, durmo numa cama macia e recupero minhas forças. Quando comecei a navegar por Goiânia, passei longos períodos longe de casa. Eu achava que precisava me manter distante para viver uma grande aventura. Eu achava que minha viagem a Goiânia tinha a ver com me tornar diferente do que eu era em Porto Alegre, e portanto minha vida antiga só me atrapalharia.
O que eu não sabia, e São Paulo está me ajudando a entender, é que minha viagem não é em busca de mudança, mas sim de reencontro – comigo mesmo.
Não é hora de voltar em definitivo a este Porto Alegre – tampouco sei se algum dia essa hora chegará. O que fica, desses quase cinco anos desbravando os mares do autoconhecimento, é a certeza de que tenho um lugar para voltar sempre que precisar ou, melhor ainda, quiser um abraço gostoso de gente querida.
