A festa do francês

Ontem deixei de frescura (“ai, ninguém me convida para sair”, “Tales, é tu quem nunca aceita os convites”) e fui com minha amiga a uma festa promovida por um francês que ela conheceu em outra festa há dois anos em Porto Alegre.

Chegamos lá pelas 20h e tinha uma galera assistindo a um jogo de futebol. Inglaterra e Itália, acho. Imediatamente liguei meus sistemas de resistência e fechei a cara. Odeio futebol, acho um saco, não gosto de pessoas que assistem, ninguém aqui vai ser legal, essa festa foi um erro, deveria ter ficado em casa pensando em sair mais, ai meu deus que inferno.

(A essa altura eu já tinha esquecido a parte do “deixei de frescura”…)

Acabou o jogo e as pessoas começaram a conversar. Digo “as pessoas” porque eu estava à margem observando tudo e fingindo que era melhor do que todos. Pensando agora, esse era exatamente o jeito que eu assumia quando estava no Ensino Médio em uma escola cheia de gente com mais dinheiro que eu. Se eu tivesse lá a amiga que tinha ontem, talvez minhas experiências tivessem sido diferentes. Ela olhou para mim e perguntou o que diabos eu estava fazendo, por que não estava interagindo.

“Eles são esnobes”, eu falei, todo cheio de razão.

“Não, eles estavam conversando e dando atenção, fazendo perguntas e interagindo. Tu que não respondeu a praticamente nada, mesmo quando falavam diretamente contigo.”.

Respirei. Pensei. Praguejei, porque ela tinha razão. Tinha razão e eu estava sendo infantil e boboca e perdendo a oportunidade de ter uma boa noite. Pedi dois segundos e reiniciei o sistema.

A festa, que até então tinha tudo para ser um porre, começou a ganhar contornos divertidos.

Conversei com franceses que tinham uma fixação territorial pela cozinha, encontrei espanhóis que falavam espanhol e eu não entendia praticamente nada, contei histórias em inglês com brasileiros, espanhóis e ingleses (porque era o nosso idioma comum, já que o moço da Espanha não pegava o português muito bem) e ri litros com as conversas místicas em português envolvendo a dona da casa, que misteriosamente nunca aparecia e praticamente ninguém conhecia.

Aprendi alguns truques para a vida, também. Dicas de sobrevivência em festas (nota para o leitor: eu nunca fui de participar de festas, então sou bobinho mesmo).

Coma muito logo que chegar, porque a comida vai acabar muito mais rápido do que a bebida. Eu estava varado de fome e não tinha mais um doritos dando sopa depois das 23h.

Ninguém leva refrigerante, mas todo mundo bebe. Só minha amiga e eu (e mais um moço, para ser honesto) levamos refrigerantes. Foi a primeira coisa a acabar porque a galera que levou vodkas e vinhos e cervejas preferiu tomar primeiro o nosso refrigerante. Tá que era uma festa e eu tenho que parar de achar que as coisas eram nossas, mas a sede de algo não alcoólico definitivamente foi nossa.

(OK, só coloquei esse aprendizado porque sou chatinho, mesmo…)

Se alguém na roda não fala o idioma X, mas todos falam o idioma Y, converse no Y. Manual de boas maneiras para a vida, né? Todos os franceses na casa falavam português, mas preferiam se comunicar em francês (o que deixava algumas pessoas, euzinho incluso, de fora). Chegou ao cúmulo de um sujeito entrar numa roda falando em português e puxar assunto em francês, o que obviamente acabou com a conversa anterior porque duas das quatro pessoas da roda não falavam francês.

(Talvez eu devesse aprender que em casa de francês, fale francês, mas enfim, eu estou aqui para reclamar!)

Anotar os nomes das pessoas no celular facilita a busca por elas depois. Eu cheguei em casa me remoendo porque não tinha bem certeza dos nomes de metade das pessoas que conheci na festa, mas minha amiga, muito prática, a cada conversa anotava os nomezinhos no celular. Genial.

E agora o aprendizado mais importante:

Chegou numa festa e não conhece ninguém? Não faça cara de cu. Eu aprendi isso com minha amiga me xingando. Depois que resolvi abrir espaço para rir e conversar com as pessoas, minha noite ficou infinitamente mais legal.

Depois de aprender essas coisinhas, só tenho uma dúvida maior: será que nas próximas vezes, especialmente se estiver sozinho, eu lembrarei delas?