Vencido pela chuva

Ontem eu e minha amiga combinamos de ir a uma roda de conversa sobre amor livre. Nós dois temos curiosidade e interesse sobre esta filosofia, já que compartilhamos a ideia de que as relações afetivas contemporâneas são bastante limitadas por tradições que nem sempre estão a serviço da felicidade humana.

O que eu entendo por amor livre é bem próximo do que li na wikipedia: relações afetivossexuais que não são definidas pela posse de outra pessoa, tampouco pelo ciúme (que nada mais é do que uma manifestação do desejo de ser dono de alguém).

Claro, isso abre espaço para milhares de conceitos diferentes para o que pode significar esse tal de amor livre. É pegação desenfreada? É pansexualidade coletiva? É coisa de quem quer pular a cerca e não sabe como?

Confesso que não sei.

Ainda não tenho leitura o suficiente para falar sobre isso com propriedade. Entretanto, esses rascunhos de definição já estão bastante próximos do que eu acredito que é certo.

Explico: eu não gosto da ideia de monogamia. Acho que, em geral, a gente abre mão do desejo pelos outros em nome da insegurança compartilhada na forma de relacionamento. Como não queremos perder aquela pessoa da qual gostamos, acreditamos que a exclusividade é o caminho para isso.

De alguns anos para cá passei a imaginar se esse tipo de restrição não seria prejudicial. Eu acredito que relacionamentos existem para somar, não subtrair.

E a chuva, cadê?

Enquanto jantávamos e conversávamos sobre nossos entendimentos de amor livre, eu e minha amiga estávamos alheios à chuva que molhava a cidade.

Fomos à parada de ônibus apenas para constatar que não tínhamos guarda-chuva.

Usamos a água gelada do céu pra justificar nossa desistência, mas ambos sabemos que a verdade era outra.

No caso dela, era o desconforto com potenciais cantadas e investidas não desejadas, um medo cultivado por experiências anteriores desagradáveis.

No meu caso, o desconforto vinha da possibilidade de entrar em contato com pessoas desconhecidas e especialmente de adentrar em suas residências. Por alguma razão que ainda não descobri, desde os meus tempos de jornalista sempre resisti a dois tipos muito específicos de eventos sociais: ligar para pessoas desconhecidas e ir a lugares para os quais não fui convidado (em particular lugares que não sejam públicos).

O tal do incômodo

Penso que tudo isso venha de um certo medo de causar incômodo.

Quando criança, fui criado para ser o menino quietinho que fazia tudo direito. Por razões familiares complexas, eu ouvia com muita frequência que não podia causar (mais) problemas à família.

Não tenho dúvida de que essa necessidade de ser cuidadoso aos poucos foi se transformando na minha personalidade quieta e assustada. Eu muitas vezes faço o que posso para não perturbar a paz alheia.

No fim das contas, não era a chuva o que estava me impedindo de pegar um ônibus e entrar numa casa cheia de estranhos.

Era a possibilidade de que alguns deles se sentisse incomodado com a minha chegada não anunciada.

Nada bom (ou livre!) para quem diz acreditar em amor livre.