Hoje dei um pulo no Plus! Plus!, do Panda Criativo, para ouvir Hélio da Silva, um homem que já plantou mais de 18 mil árvores em São Paulo e que, por isso, se apresenta como plantador de árvores. O encontro aconteceu em um espaço cedido pelo Idea!Zarvos e contou com um belo café da manhã para rechear os estômagos dos ouvintes.
O Hélio contou de sua trajetória, como veio do interior para chegar a São Paulo e do dia em que decidiu mudar a vida da Zona Leste, onde habita, e fazer disso sua missão de vida. Colhi algumas de suas falas para compartilhar e refletir a respeito.
São Paulo me deu presentes.
Já no início de sua fala, o plantador de árvores deixou clara uma relação de gratidão com a cidade. Foi nela que cresceu, estudou, se empregou, encontrou uma mulher para conviver e teve filhos. Isso me deixou pensando: será que teria uma relação assim tão profunda com uma cidade, um lugar específico no mundo? E se não, o que podem fazer os nômades para retribuir a gratidão que sentem pelos lugares que os acolhem?
Na Zona Leste de São Paulo cabem dois Uruguais.
Um país do tamanho do Brasil e uma cidade como São Paulo são fenômenos completamente fora da média. A Zona Leste abriga, segundo Hélio, seis milhões de pessoas, enquanto a população do Uruguai está na casa dos 3,4 milhões. Uma parte significativa – e frequentemente ignorada – de São Paulo pulsa na Zona Leste.
Ainda assim, eu pouco circulei por lá. Meu limite foi o Tatuapé, onde às vezes desço no caminho para Guarulhos. Meus caminhos dizem da São Paulo que vivo e, também, da São Paulo que ignoro.
Espaço público, todo mundo acha que é dono. Pedro acha que o espaço é do Pedro, Paulo acha que o espaço é do Paulo. Falta cidadania.
Ontem decidi remover alguns entulhos aqui de casa, restos de um móvel quebrado. Junto aos meus amigos, coloquei-os em um carrinho aqui do condomínio e saímos procurando caçambas onde pudéssemos despejá-los. Em certo momento, consideramos largar na rua. “Os lixeiros devem recolher”, presumimos. A verdade é que eu não sei quais são as normas que organizam o uso do espaço público – tampouco sei como me sinto com a ideia de que tais normativas existam.
Procurando apartamento para mudar, cruzei com um lixão abaixo de um viaduto. Depois que coloco meu lixo no corredor para ser recolhido – por pessoas que vejo apenas raramente, – não sei o que acontece com meus dejetos. Assim como meus caminhos falam da minha relação com a cidade, esse (des)conhecimento fala da minha relação com o mundo. Em muitos sentidos, ele é mágico: as coisas acontecem sem que eu saiba como.
Eu vou mudar isso aqui. […] Missão se faz sozinho.
Quando o plantador de árvores decidiu interferir na sua cidade, foi advertido pela mulher que ele poderia apanhar, enfrentar autoridades e criar inimigos. Ele aceitou o desafio e foi plantar mesmo assim, mesmo sozinho. Para ele, a missão era poderosa o bastante para ser encampada sozinho. Outras pessoas vêm e vão, ajudam e depois deixam de ajudar, e tudo bem, porque quem decidiu fazer do plantio de árvores a sua missão foi ele, e não as outras pessoas.
Acontece comigo algo semelhante: quem criou o Ninho de Escritores fui eu. As demais pessoas podem gostar, apoiar, de vez em quando participar, mas a missão é minha, quem tem o dever de levá-la adiante sou eu. Ou de desistir. É como nossa própria vida: ela só existe se nós a fizermos existir.
Quer aprender a ser bem-sucedido? Aprenda a contar histórias.
Toda nossa relação com o mundo é mediada por histórias e ficções. Empresas são ficções. O valor do dinheiro é uma ficção. A propriedade privada é uma ficção. O Estado é uma história coletiva que contamos e acreditamos. Conferimos poder à polícia porque acreditamos nas histórias que as instituem como entidade poderosa.
Tudo é história, tudo é narrativa.
Aprender a contar histórias é aprender a ser ouvido, a influenciar os outros, a trocar boas experiências. Com suas histórias, Hélio, o plantador de árvores, mostrou que não apenas entende isso, mas que pratica no seu cotidiano.
