Ontem eu senti medo de decepcionar os novos participantes do Ninho de Escritores, o mesmo medo que sinto desde o começo do curso e a cada dia em que alguém novo se junta ao grupo.
Importante destacar: eu acredito que o método do Ninho funciona para o seu propósito, que é ajudar as pessoas a criarem confiança criativa e experimentarem a criação literária. Ainda assim, a insegurança está sempre ali.
O nome disso é medo de decepcionar os outros.
Esse medo é como a medusa: se olharmos muito para ele, seremos petrificados, paralisados ante sua infinitude.
Porque o medo nunca vai embora e nunca se esgota.
Se o medo nunca acaba, o que a gente faz com ele? Esconde, finge que não existe? Não. A gente convive, a gente entende que o medo estará lá, esperando por nós, a cada ação que tomarmos, mas ele faz isso porque nasceu para fazer isso.
O medo nasceu para evitar que a gente se machuque.
Só que o medo é um dinossaurinho, um réptil burro que não consegue entender o mundo moderno. Falhar, para ele, significa perder a caça, perder a comida dos amiguinhos, morrer. E vai levar um tempo até que esse dinossaurinho evolua. Por um tempo, quero dizer milênios.
O jeito é criar um cercado para nosso dinossaurinho. Quando ele perceber algo novo ou diferente, ele vai rugir. Cuidado, ele vai gritar. Não faça isso, ele tentará morder tuas ideias. Algumas vezes, nosso medo-dinossauro estará correto. Outras, não. Provavelmente ele estará errado na maior parte das vezes.
Cabe a nós, no comando de nossas cabeças, ouvir o dinossaurinho e considerar se ele tem razão ou não. Ele tem memória curta para coisas boas. Então ontem, quando rugia para que eu fugisse do Ninho de Escritores, ele já tinha esquecido que o Ninho vem dando certo há cinco meses, recebendo pessoas novas e crescendo. Quando ele grita frente a um orçamento que faço para serviços de revisão, ele simplesmente não sabe que já realizo serviços assim há pelo menos cinco anos.
Para me proteger, o dinossaurinho lembra de tudo de ruim que já me aconteceu e considera tudo de ruim que poderá acontecer. E é isso que ele fica rugindo o tempo inteiro. Cabe a mim lembrá-lo do que há, houve e haverá de bom na vida.
O dinossaurinho e eu, juntos até o fim.