Ursos pesados, de Fabrício Viana (resenha)

Como parte de uma parceria com a Editora Orgástica, recebi exemplares de alguns livros para resenhar. Tudo começou quando, numa tentativa de estabelecer networking, comprei o livro O Armário. De fato, minha tentativa de construir relações funcionou e, semanas depois, recebi em casa os livros Orgias literárias da tribo, Bem-te-vi e Ursos perversos.

Meu interesse por uma literatura qualificada como LGBT é bastante significativo, especialmente se ela conseguir transbordar esta classificação e tratar de temas humanos universais. Tenho acompanhado a produção de escritores que conheço, num exercício de atenção e de formação de comunidade baseada em interesses semelhantes.

É por isso que fiquei feliz ao ler Ursos Perversos. Diferente dos demais livros que resenhei para a Editora Orgástica, trata-se de um livro de contos eróticos. É mais fácil saber se o livro serviu ou não ao seu propósito quando este é deixá-lo de pau duro: a resposta fisiológica é facilmente observável.

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De partida, já digo que há momentos em que o livro satisfaz sua ambição de estímulo erótico. Contudo, como todo livro de contos, ele apresenta altos e baixos, algumas histórias mais excitantes pareadas com outras de fôlego menor. Isso faz bastante sentido se considerarmos o livro de contos como uma metáfora para o erótico real, que se alterna entre tesões enlouquecedores e cansaços modorrentos.

Nesse ponto, gosto muito da ideia de escapar à perfeição enfeitada de uma estética pornográfica/erótica (uma diferenciação que só existe para distinguir quem pode sentir prazer de quem supostamente não deveria).

O livro Ursos Perversos também faz um convite a considerarmos o que avaliamos como atraente em termos de corpos humanos. Ursos são sujeitos grandões e/ou peludos, uma categoria de sujeito sexual muito específica, mas fora do mainstream do universo homossexual com o qual convivo. Ler histórias com ursos e sentir tesão nelas amplia as possibilidades de identificação com outros seres humanos – que por definição têm interesses diversos dos meus –, conectando-me com pessoas diferentes. Se há algo que busco na literatura, é essa possibilidade de identificação com outros seres humanos e suas experiências muitas vezes distantes das minhas.

Pela leitura de Ursos Perversos, experimentei encontros com vivências que, de outra forma, não conheceria. Assim, finalizo com a certeza de que há valor no contato com olhares dissemelhantes em relação ao meu próprio e contente de haver alcançado essa conclusão por meio da leitura de um livro de contos eróticos.

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