A revolução da empatia

Conexão: esta é a palavra que melhor resume o workshop A revolução da empatia, da Tati Fukamati. Tomei conhecimento dela e de seu trabalho na edição passada do Creative Mornings, o que para mim é uma prova de que estar entre pessoas admiráveis te faz conhecer novas pessoas para admirar (e se conectar). Vou começar este texto contando dela, do que aprendi de sua história, porque na vida, assim como nas narrativas, a empatia é essencial para que possamos conviver uma experiência.

A Tati é bióloga e entrou na faculdade porque queria achar um jeito de transformar o mundo por meio da natureza. Mas a gente bem sabe que nossa formação, especialmente acadêmica, pode dizer muito pouco sobre quem nós somos de fato e o que seguiremos a vida oferecendo ao mundo. Na biologia, Tati sentiu falta de algo que a trouxesse mais perto do lado humano. Mesmo trabalhando com projetos de educação e sustentabilidade, era como se algo não estivesse encaixando. Ela foi buscar pistas em uma pós-graduação focada em neurociência e psicologia aplicada. No trabalho de conclusão do curso, empenhou-se em estudar sobre empatia, especialmente de uma perspectiva mais social. Com esse novo conhecimento, Tati aproximou-se de um objetivo pessoal: construir um mundo mais pacífico.

Neurociência, paz, empatia, o que essas coisas têm em comum?

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Um encontro recheado de empatia

Creio que a melhor forma de te responder é relatar a experiência que vivi, desde antes do workshop até alguns minutos depois. Quando confirmei minha participação no evento, a Tati me encaminhou um e-mail em que perguntava:

Qual problema do mundo atual mais te indigna, incomoda e tira o sono?

Pensei e respondi que o problema que mais me desloca atualmente é homofobia e a (aparente) impossibilidade do diálogo com pessoas que prefeririam que eu não existisse. O que quer que Tati fosse falar durante o workshop, eu já comecei a me sentir contemplado: ela vai falar também dos meus problemas. Eu não podia estar mais certo, mas não pelo motivo que pensei.

Cheguei ao workshop uns dez minutos antes do começo. Já na entrada, conversando e rindo, estava Tati. Ela me abraçou e me indicou um pequeno percurso antes de me sentar: eu deveria pegar uma maçã (com o bilhetinho “por onde passei até chegar em suas mãos? Agora sou sua! Faça o que quiser comigo.”), escrever três sentimentos atuais em um pedaço de papel e montar meu próprio crachá, antes de então comer (havia bolos e sucos) e sentar-me.

Se tu for minimamente desarticulado como eu sou, aqui vai uma dica para a próxima vez que precisar montar um crachá: faça dois furos no papel cartão, de modo a passar o laço ou barbante pelos dois. Desse jeito teu nome não ficará virando de costas para as pessoas.

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Pode ignorar essas medidas… Uma menina fez um crachá em formato de coração e vou seguir invejando a criatividade dela para todo o sempre ^_^

Eu não sabia bem como fazer e fiz do melhor jeito que, sozinho, eu consegui. Até aí, tudo bem, mas eu estava num curso sobre empatia, então nem custava muito pedir ajuda para alguém, né? Acho que esta é uma lição mais importante do que como fazer um crachá – e não deixa de ser uma técnica apropriada para fazer tanto crachás quanto amigos.

O que aprender quando já se sabe tudo?

Tenho uma mania ruim: eu fico tentando antecipar na minha imaginação o que vai acontecer, predizendo se vou gostar ou não das coisas. Empatia é um tema que me interessa muito, em especial porque vivo de contar histórias e empatia é a base para a relação entre um leitor e um personagem escrito. Sem empatia não há experiência emocional poderosa invocada pela magia da literatura.

Por isso, quando cheguei ao workshop e a primeira tarefa era contar nossas histórias para outras pessoas, em duplas, eu pensei que estava começando a viver uma experiência “mais do mesmo”.

(Em retrospecto, começo a entender a parte da revolução no nome do workshop…)

Ouvi uma história baseada nos sentimentos que escrevemos na entrada do curso, moça cansada e ansiosa e curiosa com uma vida de emprego rotineiro e sem desafios e expectativa de mudanças. Contei a minha história alegre e esperançosa e animada sobre um Ninho de Escritores e tudo o que tenho aprendido sobre mim mesmo nessa busca por uma educação que empodere as pessoas por meio da escrita de si.

Tudo bem, tudo lindo, a Tati nos mandou trocar as histórias e seguir para contá-las para outra dupla. Eu fui, achei fácil, tranquilo, feliz, até trocarmos de novo e eu não conseguir contar a história da segunda pessoa. Travei, fiquei vermelho, gaguejei e pedi desculpas por haver perdido uma história de outra pessoa. A dinâmica acabou ali, mas se houvesse continuado, eu também não saberia contar a nova história que ouvi – porque estava tão em mim e tão preocupado em manter a primeira narrativa que não consegui deixar entrar a segunda, tampouco a terceira.

Eu ouvi, mas não escutei.

Dali em diante, decidi esvaziar meus pensamentos para que novas ideias pudessem ser derramadas em mim. As ideias de “eu já sei isso” e “isso não me importa” precisaram se desfazer para que a experiência do workshop começasse a fazer sentido. Que bom que me abri assim, porque muitos aprendizados vieram pelo caminho.

O que é empatia?

Tati nos perguntou o que entendíamos por empatia. Duas foram as principais respostas:

  • colocar-se no lugar do outro;
  • compartilhamento de emoção.

Quando tratamos de empatia, precisamos entender que não se trata das nossas necessidades nem dos nossos desejos, mas da possibilidade de conectar-se com outra pessoa e com as questões que a colocam em movimento. Como diz o escritor George Bernard Shaw:

Não faça aos outros o que você gostaria que fizessem com você, eles podem ter gostos diferentes dos seus.

Quando exercemos a empatia para lidar com outras pessoas, estamos fazendo uma escolha vulnerável, porque muitas vezes precisamos visitar lugares – dentro de nós e dos outros – que preferiríamos deixar escondidos. Acolher alguém em sofrimento e praticar a empatia não é dizer que tudo vai ficar bem, tampouco sugerir que há outros motivos para ficar feliz. O que torna algo melhor é a conexão, não a resposta.

A pesquisadora Theresa Wiseman indica que há quatro qualidades necessárias para a empatia acontecer:

  • o reconhecimento a perspectiva do outro como uma verdade;
  • a isenção de julgamento;
  • o reconhecimento de emoções em outras pessoas;
  • a comunicação de emoções com as pessoas.

Nossas narrativas dependem de conflito para se difundir e engajar leitores/espectadores (o que tem a ver com as funções da ficção, algo sobre o que podemos conversar em outro texto), então com frequência criamos imagens da humanidade como completamente egoísta, inapta ao contato com o diferente. Eis que a neurociência entra em campo para mostrar como estamos errados. Somos seres empáticos desde o nascimento.

Desde bebês, aprendemos sobre o mundo imitando outras pessoas. Isso ocorre porque temos neurônios espelho, que nos habilitam a sentir o que os outros sentem quando os vemos ou imaginamos sentindo. Tu já te encolheu de dor quando viu alguém martelar um dedo? É isso. Essa é, inclusive, a explicação mais avançada sobre o porquê de nós nos entregarmos à ficção: é uma forma segura de vivermos experiências sem necessariamente enfrentar os perigos que estariam associados a essas experiências.

Em resumo, emoções contagiam.

Tati explicou então que, para a ciência, a empatia acontece de fato no cruzamento de dois tipos distintos de empatia: a cognitiva e a afetiva. Uma diz respeito a compreender racionalmente o que os outros sentem, enquanto a segunda se refere a compartilhar sentimentos. Há empatia de fato quando sentimos o que os outros sentem e compreendemos que é uma emoção que faz sentido para o outro.

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Afinal, podemos aprender empatia?

Sim, podemos. Um dos grandes exemplos de como podemos desenvolver nossa capacidade de exercer a empatia é a justiça restaurativa, um procedimento que coloca frente a frente pessoas que cometeram crimes e pessoas que foram afetadas por esses crimes. Digamos, um homem que matou um jovem e a mãe deste jovem. Neurocientistas conduziram experimentos em que analisaram os cérebros de prisioneiros e avaliaram o tamanho de uma determinada área envolvida na empatia. Depois de várias sessões de justiça restaurativa, em que os prisioneiros precisavam dialogar com pessoas afetadas por suas ações, os cientistas voltaram a analisar seus cérebros e perceberam um aumento na área responsável pela capacidade de exercer empatia.

Isso ocorre porque nosso cérebro é plástico, capaz de aprender e se reorganizar à luz das habilidades que praticamos, enquanto deixa de lado aquilo que nos é inútil. É desta forma que aprendemos novas linguagens e perícias: estabelecendo novas conexões em nossa mente.

Neste momento, Tati retomou as questões que pediu que cada um enviasse sobre o que nos tira o sono. Falamos sobre homofobia, intolerância, violência, capitalismo, falta de educação e de capacidade de lidar com as diferenças. Para indicar que a empatia é uma solução possível para todos esses problemas, Tati trouxe exemplos práticos de como a empatia pode ser utilizada em prol de um mundo melhor:

  • colocando-se no lugar do outro por meio da arte (literatura, teatro, cinema etc.);
  • conversando com quem nos machucou;
  • sentindo na pele o que outras pessoas enfrentam cotidianamente.

Um dos exemplos mais poderosos foi o projeto It won’t stop until we talk (algo como Não vai parar enquanto não conversarmos), que coloca palestinos e israelenses para conversar sobre o que sentem. Como bem a Tati esclareceu, é um processo por vezes difícil, com gritos, xingamentos, tristezas para além da conta… Mas, encontro após encontro, uma sementinha de empatia é plantada e pessoas até então em lados completamente opostos começam a perceber semelhanças e proximidades.

O mundo tem muitos problemas. É capaz de ficarmos paralisados diante de tantas dificuldades e situações complicadas. Diante deste cenário, a empatia pode funcionar como um ponto de acupuntura, uma pequena ação cujos efeitos se espalham de forma sistêmica, uma vez que tudo está conectado. Nós não vamos salvar o mundo, certamente não sozinhos.

Quando pensei que Tati falaria dos meus problemas, achei que isso significava que ela dedicaria um tempo para tratar apenas sobre empatia e homofobia. Ela fez isso e muitos mais: nossos problemas mais urgentes como humanidade decorrem da falta de práticas mais voltadas para a empatia. Precisamos aprender a nos conectar.

O que levei para casa?

O workshop terminou com um pedido: que fizéssemos um compromisso com nós mesmos sobre como poderíamos começar a aplicar mais empatia em nossas vidas. Escrevi que meu compromisso seria compartilhar mais, mas na verdade minha intenção é conectar. Tenho feito isso pelo poder da escrita e das histórias, mas a vida é muita coisa ao mesmo tempo e, caminhando em direção ao metrô, aprendi a lição final da noite.

(Se tem algo que sei sobre experiências poderosas é que elas se grudam em ti e te acompanham vida adentro.)

Já era perto das dez e eu fui subindo uma rua que me deixaria na estação Clínicas, da linha verde. Passavam ônibus e grupos de estudantes. Sentado no chão ao lado de uma padaria, estava um homem enrolado em um cobertor. Ele pediu dinheiro para comprar uma refeição, eu disse que não tinha e segui caminhando. Nem dez passos depois, lembrei que tinha na bolsa uma maçã que me dizia: “faça o que quiser comigo”.

Voltei atrás, tirei da bolsa a maçã e a ofereci ao moço.

Eu estava pronto para voltar a caminhar me sentindo o campeão da empatia, aquele que nem meia hora depois do workshop já é capaz de colocar em prática o que aprendeu. Mas empatia é se conectar ao outro, não à nossa vontade de acariciar o próprio ego.

“Na verdade, eu gostaria de água” ele me disse enquanto recebia a maçã. “É que esses dias tomei água da rua, fiquei doente e estou até agora tentando sarar.”

Quando ele me perguntou por refeição da primeira vez, eu estava com uma ideia fixa: não tenho o que oferecer para o mundo. Por isso, disse não. A maçã tinha uma mensagem que me dava permissão para fazer (e ser) diferente, então pensei que ela era tudo o que eu precisava oferecer. Eu não estava disponível a descobrir o que o moço precisava porque estar disponível significa estar vulnerável.

Tudo aquilo que já me passou pela cabeça uma vez voltou a me assombrar:

É tarde. Estou com dificuldades para pagar meu aluguel. Tenho medo de ser assaltado – se não por eles, por outras pessoas. Quero chegar logo em casa. Vai saber para o que usarão o dinheiro. Eu não posso mudar a vida deles. Preciso cuidar de mim primeiro para depois poder ajudá-los. Eu. Eu. Eu.

Não sei o que posso fazer para resolver o problema das pessoas que moram na rua e têm fome. Eu não consegui nem resolver a sede de um homem – e olha que eu sabia exatamente o que fazer, bastava entrar numa lanchonete e comprar uma garrafa. Fui embora sem escutar mais nada, atordoado.

Eu consegui voltar e doar a maçã porque ela me mantinha numa posição de superior benevolência, era algo que não me faria falta, que eu sequer havia registrado que era minha.

Eu gostaria de encerrar este texto com certezas sobre como lidar com o mundo, mas o que ficou, para mim, foi um aprendizado: de fato, a empatia precisa ser treinada.


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3 comentários em “A revolução da empatia

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