A raposa no Estaleiro Liberdade

Uma amiga me procurou para falar sobre um grupo de empreendedorismo baseado em metodologias alternativas de educação. Ela estava falando do Estaleiro Liberdade, que começou em Porto Alegre e agora tem um irmão dando os primeiros passos aqui em São Paulo.

Achei interessante e marquei uma conversa com um dos “piratas”. Lá no Estaleiro as pessoas são divididas entre piratas (são três) e marujos (somos vinte e quatro). Os piratas são responsáveis por coordenar a coisa toda, organizar os encontros e auxiliar os marujos no percurso da trajetória individual de cada um. Os marujos, por sua vez, têm a função de se permitir viver uma aventura desafiadora em busca do autoconhecimento e do empreendedorismo.

Cheguei lá cheio de esperanças, no dia 10 de maio, para o primeiro encontro. Vinte e sete pessoas reunidas para um almoço colaborativo em que cada um montava suas pizzinhas a partir de ingredientes comprados na feira ou trazidos das muitas casas. Comendo e conversando, fui conhecendo um pouco de algumas criaturas e descobrindo pedaços de personalidades.

Depois veio a dinâmica dos nomes: todos em círculo, cada um diz o seu nome seguindo uma ordem anti-horária. Depois de novo. Depois cada um diz o nome do próximo. Depois de novo. Depois do próximo do próximo, e de novo. Depois o nome do anterior, de novo, e do anterior do anterior. Foi um jeito interessante de começar a pegar os nomes, especialmente para quem tem uma memória péssima para rostos.

Pausa para o que aprendi ano passado na Nova Acrópole: não lembrar o nome das pessoas não é uma incapacidade da memória, mas sim um reflexo da nossa falta de atenção para com quem estamos conhecendo. Algo muito, muito feio, mas acho desculpável quando conhecemos trinta pessoas de uma vez só.

Depois dos nomes, fomos apresentados aos princípios, práticas e acordos que, dali em diante, passariam a reger a nossa existência coletiva, especialmente quando em círculo. São três princípios, três práticas e cinco acordos.

O primeiro princípio é a liderança rotativa, pois o grupo transfere o papel de líder para a pessoa que propuser uma questão ou debate no momento. Caberá a essa pessoa conduzir as discussões a fim de sanar suas necessidades. Também seguimos o princípio da responsabilidade compartilhada, a partir do qual o que é de um é de todos. O círculo é uma unidade tanto quanto os sujeitos que o compõem, portanto compete a todos cuidar do bem geral. Por fim, trabalhamos com o princípio de ter um propósito maior coletivo, de modo a buscar nossas trajetórias individuais, mas também crescer enquanto rede de relações humanas afetivas e empreendedoras.

As práticas para a convivência em círculo também são três e organizam a fluidez dos encontros: falar com intenção, pois nem tudo aquilo que nos vem à cabeça precisa ser compartilhado, muitas vezes servindo apenas para atravancar os debates; ouvir com atenção, e não apenas esperando uma brecha para responder, já que uma pausa é necessária para refletir sobre aquilo que acabamos de ouvir; e contribuir para o bem-estar do grupo, buscando meios de facilitar a existência de cada um dos membros.

Por fim, firmamos cinco acordos. Ouvir sem julgamentos. Ninguém se conhecia e todo mundo passaria a conviver por pelo menos dois meses. Qualquer julgamento aconteceria sem o reconhecimento das vivências de cada um. O que é dito no círculo fica no círculo. Nós usamos o espaço do círculo para compartilhar partes importantes das nossas vidas e dos nossos desejos de futuro. Isso nos deixa vulneráveis, de certa forma, pois estabelecemos um acordo de confiança que, esperamos, será respeitado por todos os integrantes. Ofereça o que você pode dar, peça o que você precisa. Cada pessoa é um pacote de necessidades e possibilidades de partilha. Em rede, tudo isso se encontra e se mistura para que o conjunto dê conta de solucionar problemas ou encaminhar resoluções. O silêncio também faz parte da conversa. Mesmo que a nossa vontade seja de falar qualquer coisa o tempo inteiro apenas para fugir dos momentos em que nada é dito. Ter presença e intenção nas escolhas. Quem está lá, está porque quer estar. Se não quiser, tudo bem, estará em outro lugar que faça mais sentido naquele momento e isso é essencial para uma vida plena.

Eu acrescentaria dois acordos, ainda, embora eles não tenham sido ditos. É o caso de você pode tudo, no sentido de que não precisamos pedir permissão para manifestar nossas vontades ou agir em nome delas, e também de não precisa pedir desculpas, pois cada um sabe suas necessidades do momento. Claro, pedir desculpas por machucar alguém é completamente diferente de não precisar se desculpar por sentir fome, por ter que sair ou por querer manifestar uma dúvida.

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Nunca peça desculpas por dizer o que você sente. É como dizer “desculpe-me por ser real”.

Princípios, práticas e acordos bem legais, não é mesmo? É claro que, como boa história, nem tudo poderia correr às mil maravilhas…

Começaram as apresentações individuais. Cada um falando de si, explicando um pouco sobre quem era ou o que estava fazendo ali. Muita poesia, muita metáfora, muita gente se explicando de um jeito que eu acho new age demais. Lembrei de ouvir sem julgamentos, respirei e tentei entender aquela gente esquisita falando de experiências metafísicas e reencontros de si. Expliquei a minha motivação para estar ali, que era (e ainda é) buscar modos de afetar os outros (sim, eu falo da galera que curte um solzinho para se energizar, mas estou lá para mudar o mundo).

Até que veio o abraço coletivo.

Eu não estava pronto para o abraço coletivo. Mesmo. Olhei aquele bolo de gente se aglomerando e pensei: “putaquepariuqueporraéessa?” Respirei bem fundo, levantei da minha almofadinha macia o mais devagar que consegui e fui até aquela bola humana. Abracei e…

Nada.

Achei um saco. Juro que acreditei que em algum momento eu entenderia a energia mágica por trás do encontro de corpos, da intimidade recém construída entre parceiros de navegação nos mares da vida, mas não. Apenas uma raposa abraçando quase três dezenas de pessoas e se sentindo extremamente desconfortável. Fiquei o tempo todinho pensando que eu não sabia o que estava fazendo ali.

Mas eu continuei porque sabia sim o que fui fazer no Estaleiro Liberdade, mesmo que não entendesse a coisa do abraço. Quase um mês depois, o que mudou?

Eu tenho um projeto de negócio sendo rabiscado e pretendo empreendê-lo até no máximo agosto. Eu tomei coragem de criar uma declaração de sentimentos artesanal. Eu estou me relacionando com inúmeros projetos envolvendo a escrita. Eu sinto que estou no caminho certo desta missão que vim desempenhar em São Paulo. Eu vou para os encontros do Estaleiro nas quartas de manhã e saio revigorado e cheio de novas ideias e possibilidades porque o mundo é grande e eu posso tudo sem precisar pedir desculpas.

Semana passada houve um novo abraço coletivo. Não foi tão ruim. Eu ainda não entendo o que as pessoas que abraçam e se emocionam sentem (assim como não compreendo quem chora para contar a sua história), mas eu as respeito porque são experiências diferentes das minhas, nem por isso melhores ou piores. São modos de coexistir diferentes.

O Estaleiro não está me ensinando nada: não é um curso tradicional em que conteúdos são repassados e absorvidos. Não há quadros com dicas de empreendedorismo. Não há leituras de autoajuda.

O que existe são encontros entre pessoas que estão percorrendo as suas jornadas e que estão dispostas a construírem um caminhar lado a lado. É nesse processo que eu venho aprendendo, e o aprender me transforma. Hoje, um mês depois de conhecer esse pessoal muito louco, posso dizer que me sinto à vontade perto deles e com vontade de estar ainda mais perto, ainda mais por dentro dos projetos maravilhosos que desenvolvem.

No encontro de ontem, os piratas lançaram a pergunta: “o que quero desenvolver em mim?”. A minha resposta: entender que o medo é parte de mim e que ele não vai a lugar algum; o meu papel é aprender a conviver com ele.

E o melhor de tudo?

A minha jornada no Estaleiro está apenas começando.

10 comentários em “A raposa no Estaleiro Liberdade

    • Eu faço cara de paisagem que é para não magoar os sentimentos alheios. Mas que eu estranho, ah eu estranho!

      (mentira, não sei fazer cara de paisagem, então solta a imaginação!)

  1. Também adorei o texto! A experiência deve estar sendo diferente. Uou. Abraço coletivo, se abrir em público, sair da zona de conforto e o principal, se sentir bem na própria pele. Que a sua jornada seja bem-sucedida, raposinha!
    Abraços

  2. Nossa como gostaria de fazer parte de um grupo estimulante como este. Admiro o poder de transformação das diferenças.
    Aproveite amigo. Com o tempo as barreiras emocionais deixarão de ter utilidade.
    Abraços

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