O que querem as imobiliárias?

Só quando decidi mudar de Porto Alegre para Goiânia, lá em 2010, é que percebi que achar uma casa para viver poderia ser um problema. Até então estava tudo garantido como o privilégio invisível de quem já nasce com moradia. Até hoje, contei com dois caminhos pra lidar com esse problema nas minhas andanças.

  1. Contar com amigos e pessoas com potencial para se tornarem amigas e morar com elas. Fiz isso quando cheguei em Goiânia e também quando cheguei em São Paulo.
  2. Contratar os serviços de uma imobiliária. Fiz isso quando me mudei em Goiânia e agora em São Paulo.

Assim como o privilégio invisível da moradia, eu tinha uma ideia muito clara de qual era a função das imobiliárias: ajudar pessoas a encontrarem casas. Só que eu estava errado e vou te contar o porquê.

IMG_20160616_100956083 reduzida

Imobiliárias exigem garantias. Até onde tomei conhecimento, existem quatro tipos em vigência atualmente: cheque caução, seguro fiança, fiador e título de capitalização.

  • Cheque caução: tu paga o equivalente a três ou quatro aluguéis e recebe o dinheiro de volta ao final do contrato como se ele estivesse depositado em uma poupança.
  • Seguro fiança: tu contrata uma seguradora pagando em média um aluguel e meio a mais todos os anos.
  • Fiador: uma ou mais pessoas com imóveis próprios se responsabilizam pelo teu contrato; se tu não pagar tuas contas, elas precisarão fazê-lo.
  • Capitalização: igual ao cheque caução, mas o preço varia entre seis e quinze aluguéis (sério, quem inventou essa prática estava de muito bom humor pra brincar geral com os corações da galera que busca moradia).

Quando contratei uma imobiliária em Goiânia, eu tinha grana no banco para o cheque caução e depois recebi o dinheiro de volta (reduzidos os custos de devolução do apartamento e consertos superfaturados que a imobiliária apontou).

Para mudar em São Paulo pela segunda vez, encontrei dificuldades porque a maior parte das imobiliárias convencionais resolveu abolir o cheque caução – que já é pesado, mas pelo menos o dinheiro volta, então existe uma perspectiva de alívio futuro. Além disso, fiadores só poderiam ter imóveis em São Paulo, ou seja, nada de pedir ajuda para os pais lá no Rio Grande do Sul.

Um amigo me indicou um apartamento no prédio em que mora e fui conversar com a imobiliária responsável. Eu já tinha um outro imóvel em vista (falo dele já, já), então estava tranquilo o bastante para fazer as perguntas certas. Comecei perguntando das garantias necessárias, ele falou em fiador (em São Paulo), seguro fiança ou capitalização. Perguntei “por que o fiador tem que ter imóvel em São Paulo?” e a resposta já foi ruim: “porque fica caro mandar documentos e resolver pendências em outras cidades”.

Aprendizado 1 sobre a lógica das imobiliárias: vai dar errado. Eu sou um cara de boas, acho que todo mundo merece confiança e que essa deveria ser a base dos negócios. (Talvez isso explique porque eu não enriqueço empreendendo.)

Contei ao corretor de imóveis que havia encontrado uma imobiliária que paga o seguro fiança para os locatários. O homem ficou desconcertado, incomodado, transtornado, e disse que não era possível. Reafirmei. “Então vão cobrar isso de vocês de alguma forma”, ele insistiu. “De acordo com o contrato, não”, eu rebati.

“Então devem cobrar dois aluguéis dos proprietários. Se é assim, eu também posso pagar o seguro fiança!” ele disse, como se tivesse colocado uma manilha na mesa logo depois de pedir truco.

Aprendizado 2 sobre a lógica das imobiliárias: elas estão a serviço de si e dos proprietários, não das pessoas que buscam imóveis para morar. O problema que elas resolvem, enquanto empresas, não é o meu – pelo menos não enquanto eu não tiver um imóvel.

Depois do trunfo do corretor, eu não quis perguntar mais nada. Já tinha minhas respostas. Eu não era o cliente dele, mas sim parte do serviço que ele oferece para o seu cliente verdadeiro, o proprietário.

E tudo bem. Errado era eu procurando uma coisa de quem só estava me oferecendo outra.

Mas nada disso teria me ocorrido se eu não houvesse conhecido a Quinto Andar. Tô aqui pensando que alguém vai me acusar de estar sendo pago para falar sobre eles, mas não. Eles têm a melhor estratégia de marketing possível: são eficientes. Ouvi falar de uma tal startup de imóveis que pagava o seguro fiança para os locatários, resolvendo e agilizando o processo de locação. Achei que era bobagem, que todos os imóveis eram caros, que não valeria a pena, mas resolvi tentar.

Meu novo apartamento? Contrato assinado dois dias depois da visita. Sem seguro fiança – pelo menos sem seguro fiança saindo do meu bolso.

Um último aprendizado: se uma lógica não funciona para ti, o canal é encontrar ou criar uma que funcione. O mundo é grande demais para a gente se acomodar com serviços burocráticos e onerosos.


Also published on Medium.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *