Mudar de ideia sem abrir mão de nada

A comunicação não-violenta propõe um conceito revolucionário: cuidar das necessidades de todas as pessoas sem que ninguém deva ter que abrir mão do cuidado de nenhuma de suas necessidades.

Uma objeção a essa ideia nasce da confusão entre necessidades e estratégias. Necessidades são universais, ou seja, todas as pessoas possuem as mesmas. Estratégias são as formas como escolhemos atendê-las e existem dez mil estratégias para cuidar de cada necessidade. Duas necessidades de pessoas diferentes nunca entram em conflito, mas sim as estratégias escolhidas para cuidar delas.

Talvez um exemplo ajude. Desde minha infância, a relação que mantenho com meu pai foi, no mínimo, de distância. Eu gosto dele, porém apreciamos coisas diferentes e pouco conversamos de forma mais profunda. Nos falamos cinco vezes ao ano, em datas comemorativas específicas: nossos aniversários, natal, ano novo e dia dos pais. O estado da nossa relação era meio que uma pedrinha pequena no meu tênis: dava para conviver, mas eu sabia que estava ali. Por isso, há pouco tempo decidi fazer as pazes comigo mesmo e aceitar que nós não teríamos uma relação profunda.

Estava tudo claro na minha cabeça. Em vez de viajar para Porto Alegre e ter que abrir mão de estar com meus amigos para um encontro familiar burocrático, eu manteria a relação apenas nas trocas de mensagens e estaria tudo bem.

Assim foi até que, um dia, conversando com amigas, falei sobre o quanto eu queria conhecer mais da minha história de vida e entender de onde eu venho. Dessa conversa, nasceu uma vontade de conhecer de onde meu pai veio, como ele aprendeu a ser como é, que escolhas ele fez na vida e como se sente em relação a elas. De repente, o que antes era um encontro a ser evitado se transformou em algo que eu ativamente quero fazer. O que sempre me significou perder tempo de cuidar de outras necessidades começou a se modificar, mudando junto as estratégias.

Agora, a ideia de ir conversar com meu pai me anima porque estou genuinamente interessado em me conectar melhor com ele e saber de suas histórias de vida. A perspectiva de estar com ele deixou de me parecer apenas protocolo social de pai e filho. A minha estratégia de não manter contato com ele deixou de servir ao propósito de criar uma vida mais maravilhosa para mim, o que significa que está na hora de viver novas estratégias.

🙂


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