Masculinidade tóxica

A Gilette publicou um comercial em que convida os homens a abandonarem os padrões de masculinidade que não atuam a favor de vidas melhores: cantadas que objetificam as mulheres, conflitos resolvidos na porrada, cyberbullying, abusos físicos e sexuais.

Neste momento, mais que o dobro de pessoas afirmam não terem gostado do vídeo, que já alcançou 16 milhões de visualizações e apresenta mais de 200 mil comentários. Após assisti-lo, fiz o impensável: li os comentários na página do YouTube. 

Muitos homens prometem que vão parar de comprar da Gilette. Outros mostram-se ofendidos. Outros atribuem culpa de seus sofrimentos às mulheres. Outros criticam que uma empresa multimilionária queira ensinar o jeito certo de ser homem.

Por trás de tudo isso, os homens demonstram um medo gigantesco de serem criticados, de estarem errados.

Discutir masculinidade é difícil, especialmente quando pessoas que entendem que ser homem é uma coisa boa ficam ofendidas. Há alguns anos, quando houve uma explosão nas conversas online sobre cultura de estupro, vi homens muito próximos de mim se armarem em debates calorosos sobre como não, isso não existia, não, homens não são maus, não, tem que rever esse jeito de falar da gente.

A ideia de masculinidade precisa ser reforçada o tempo inteiro para que se mantenha firme. Não pode ser afetuoso com outros homens. Não pode ser fraco. Não pode gostar de coisas que foram socialmente atribuídas às mulheres. Não pode soltar o corpo. Não pode conversar. Não pode se abrir. Tem que um monte de coisa.

A ideia de masculinidade que temos vigente é tóxica para os homens que aprenderam a depender dela para se afirmarem e para as pessoas que orbitam ao redor deles.

Essa masculinidade tóxica é marcada por ideias muito fortes de certo e errado, bom e ruim, deveria e não deveria. O problema disso é que esses julgamentos moralistas interrompem a possibilidade de conexão entre as pessoas e, portanto, dificultam a construção de experiências de vida melhores para todo mundo envolvido.

Não é um comercial da Gilette que vai mudar isso, sem dúvida. O que vai mudar isso é prestar atenção, parar pra respirar e avaliar se estamos felizes com o que nosso modelo de masculinidade (tóxica) atual está produzindo para nós e para as outras pessoas. E isso exige a disposição para abrir mão dos próprios privilégios. É muito bom e fácil ser homem porque o mundo é construído para nós (e ainda assim também é ruim e difícil, porque tem que sustentar a atuação de macho). Assumir que nossos privilégios machucam (não só as outras) pessoas implica em escolher ser cretino ou escolher deixar de lado esses poderes. Assumir que nossa forma de viver a masculinidade é danosa pra todos implica em reconstruir nosso modo de ser e estar no mundo.

Eu entendo por que tanta reação ao comercial da Gilette. É medo.

O que espero é que tenhamos cada vez mais espaços para cuidar desse medo e facilitar essa transição do tóxico para o amoroso.


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