Noite de improviso no Comedians

Eu sou uma pessoa de rotinas. Por isso, quando fui à noite de improviso no Comedians, minha maior dúvida era o que fazer se eu fosse chamado no palco e tivesse que encarar toda uma plateia. Gosto de antecipar problemas e de imaginar soluções de antemão, porque me considero uma pessoa pouco espontânea. Mal sabia eu que essa postura é exatamente o oposto do necessário para praticar o improviso.

Difícil dizer o que eu estava esperando da noite de improviso. Já conhecia o Marcio Ballas de uma palestra na Plus! Plus!, na qual ele tratou sobre o que era necessário para improvisar. Os dois outros apresentadores, Edu Nunes e Marco Gonçalves, e o convidado, Allan Benatti, foram gratas novidades adicionadas à lista de nomes para prestar atenção.

(Como um cara de rotinas, guardo alguns nomes como pré-aprovados: se eles estiverem em um evento, a probabilidade desse evento ser legal aumenta.)

O Comedians fica na Rua Augusta, em São Paulo, e participa da programação do Risadaria, o maior festival de humor do mundo. Em 2015, o Risadaria superou o canadense Just for Laughs. Durante todo o mês de julho, estão marcados diversos filmes, apresentações, exposições e debates. É uma oportunidade para se aproximar de quem está fazendo humor atualmente.

Como defensor dos direitos humanos, acho humor um tema delicado. No documentário O riso dos outros, aprendemos que o humor sempre aponta o dedo para alguém ou alguma coisa, ou seja, sempre há uma vítima. O que pesa, no final das contas, é às custas de quem ou do que estaremos rindo. Quando me propus a escrever este registro narrativo, essa era uma das perguntas centrais para guiar meu olhar.

Comedians noite de improviso

O que acontece em uma noite de improviso?

Embora a noite de improviso estivesse marcada para começar às 21h, desde 19h é possível chegar e ficar pelo bar. Esse tempo antes funciona para quem deseja beber, comer e conversar com os amigos antes do show começar. Como descobri durante as perguntas dos apresentadores, apenas uma pessoa foi ao Comedians sozinha, um rapaz que passou, viu a fachada, pensou que seria interessante, gostou e entrou.

(Spoiler alert: pelo sorriso inesgotável, acho que ele gostou também depois que entrou.)

Quando o músico entrou, sentou-se frente ao teclado e começou a tocar, os risos começaram. Até ali, parecia haver pouco ou nenhum improviso, mas a entrada já dava o tom do que viria pela frente. Ele começou tocando um parabéns a você desajeitado, uma tecla por vez, hesitante. Depois dos primeiros aplausos, tocou de novo, desta vez numa sequência de elaborados estilos, comprovando sua habilidade. Primeiro foi engraçado pela sua aparente falha, depois foi divertido pela sua perícia. Já aí uma coisa ficou clara: o alvo do humor era ele mesmo.

Marcio, Edu e Marco atravessaram as cortinas vermelhas e entraram no palco. Na apresentação, destacaram: não seria um stand up, mas improviso. Nenhum deles – na verdade, nenhum de nós – estava no controle do que aconteceria dali para a frente.

A noite transcorreu com uma série de jogos criativos durante os quais os apresentadores e o convidado precisavam inventar cenas a partir dos elementos apresentados pela plateia. Em um destes jogos, os artistas precisavam recitar poemas relacionando a vida a objetos sugeridos pela audiência. Em outro, eles interpretaram personagens (cujas profissões vieram do público) que entravam em um bar e cantavam suas histórias de vida.

Durante uma hora e meia, o riso era garantido não apenas pelo inusitado das cenas e das piadas, mas também pela sagacidade dos artistas. Foi essa esperteza que garantiu a diversão. Era como se estivéssemos assistindo a cenas que bem poderiam acontecer conosco entre amigos.

A diferença era o palco e o treinamento.

O que vem antes do improviso

Há pelo menos quatro princípios que fundamentam a possibilidade do improviso. Embora pareçam invisíveis, eles estruturaram cada piada, cena e história vivida no palco. São os mesmos pilares que oportunizam a existência da criatividade e, também, da empatia.

(Pesquei esses princípios alguns meses atrás de uma palestra do Marcio Ballas.)

O primeiro princípio é aceitar que o outro é diferente. Se os comediantes não conseguissem desligar seus julgamentos e preconceitos, dificilmente conseguir lidar com a dinâmica da criação na hora. O improviso exige a aceitação da diferença porque o outro não vai corresponder às nossas expectativas, vai responder nossas propostas com suas próprias ideias e daí pra frente a coisa deixa de ser apenas nossa ou somente dele, ela se torna algo compartilhado.

O segundo princípio é deixar o “não” de fora. Dizer não é criar uma barreira que interrompe o fluxo das possibilidades. Negamos quando queremos evitar que as coisas sejam diferentes daquilo que imaginamos (volte um parágrafo e releia o primeiro princípio). Quando dizemos sim, por outro lado, deixamos correr livre as histórias que poderão se formar. Se o não é uma porta trancada, o sim é a chave.

Durante uma cena em que apenas dois artistas estavam apresentando, um terceiro entrou para encenar junto, fazendo-se de objeto no cenário. Os dois artistas poderiam tê-lo ignorado e lançado um não silencioso àquela intervenção não requisitada, mas optaram por dizer sim e interagiram com ele, ampliando a potência da cena.

O terceiro princípio da improvisação é entender que errar faz parte. O espetáculo não foi perfeito, umas piadas passaram sem risadas e certas histórias ficaram fracas de um ponto de vista narrativo. E tudo bem. Se eles não pudessem abraçar o erro, tampouco poderiam improvisar. Quando não sabemos o que está para acontecer e não temos um mapa detalhado prevendo cada passo seguinte, erros vão acontecer. O erro é a materialização da diferença, para a qual devemos dizer sim.

O quarto princípio me pareceu determinante para o sucesso da noite: improvisar é diferente de fazer gambiarra. Improviso demanda técnica, prática e desprendimento para observar e rearranjar os elementos com os quais o público conseguirá dialogar. Para improvisar, eles precisaram estar preparados, informados sobre o mundo em que vivem. Falaram de iogurte, de engenharia, de holograma, e creio que bem poderiam falar de física quântica e religiões do leste asiático. A intenção das cenas era fazer rir aos outros, não apenas a eles próprios, o que tornava o humor ainda mais poderoso.

Para além destes quatro princípios, colhi uma impressão desta noite de improviso: estereótipos são importantes porque articulam os lugares comuns do pensamento. O jogo proposto pelos improvisadores precisava se equilibrar entre o estereótipo e o particular. Sem estereótipos, a plateia não reconheceria os cenários e personagens propostos. Sem particularidades, não haveria margem para o estranhamento que provoca o riso.

E o medo de participar?

Um casal foi chamado ao palco. Juntos havia 28 anos, eles serviram de inspiração para o jogo final. De início, estavam constrangidos, mas havia algo de acolhedor no convite. Seguindo as perguntas do Marcio, o casal ofereceu aos artistas tudo o que precisavam para criar. Além disso, o casal ainda ganhou o poder de interferir na cena por meio de uma buzina, que indicava que algo devera ser feito de outra forma.

Quando anunciaram o fim da noite, me espantei porque o tempo passou. Aquela hora e meia voou enquanto estive entregue ao presente, rindo do início ao fim das brincadeiras e tentativas de lidar com os desafios de cada jogo.

Na saída, vi o Marcio Ballas e pensei em falar com ele. Mas dizer o quê? No bom espírito do improviso, poderia ter dito qualquer coisa, de “oi, adorei a noite” até “oi, vim escrever um texto sobre tua apresentação”. O resto da história se contaria na soma de nós dois, sem medo da diferença, fugindo do não, podendo errar e cheio de intenção, a depender do modo como ele me respondesse e do que eu fizesse com sua resposta, e assim por diante.

Como qualquer conversa e, na verdade, como a vida. Ficou para a próxima chance como um desafio pessoal.


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