Eu fui muito cretino

Entre 2011 e 2012, eu tive um namorado. Nos conhecemos por Facebook num momento em que eu havia acabado de levar um pé na bunda e estava me sentindo no fundo do poço emocional. Eu achava que não prestava para nada e de repente havia alguém ali me oferecendo atenção, alguém interessado em mim.

Nós saímos, ficamos e seguimos juntos por oito meses. Nesses últimos anos, eu já falei e pensei mil coisas sobre esse relacionamento. O que talvez eu nunca tenha parado para escrever a respeito foi sobre minha parcela de responsabilidade sobre como as coisas aconteceram entre nós.

Entre as coisas que eu admirava nele, a inteligência apurada, o conhecimento sobre arte e o fervor com que se entregava ao seus interesses. Entretanto, nossa relação está marcada em minha memória também pelas nossas discussões intermináveis e agressivas, porque víamos o mundo de formas radicalmente diferentes e não sabíamos formas melhores de colocar nossas opiniões um para o outro.

Naquela época, eu não tinha consciência de como eu estava me sentindo. O namoro funcionou para mim como uma bengala, na qual me apoiei enquanto recuperava as forças para caminhar de novo por conta própria. Embora essa não fosse uma escolha de caso pensado, olhando para o passado fica evidente a minha indisposição para verdadeiramente escutar o que meu então namorado queria e precisava.

Verdade seja dita, se eu tivesse realmente parado e escutado, tanto a ele quanto a mim, nós não teríamos namorado. Não por causa de algum defeito nosso, mas porque não acredito que eu seria capaz de oferecer o que ele estava buscando (especialmente naquele momento) e porque o que eu busco é diferente do que ele queria me oferecer. O que não é problema algum.

Ainda assim, nós namoramos. Eu fui o primeiro namorado dele, ele foi meu terceiro. Eu vinha de uma sequência do que eu achava que eram micro relacionamentos naufragados e pensava que tudo o que precisava para namorar alguém era um mínimo de compatibilidade, disposição e interesse. Por isso, eu ofereci o mínimo. Porque o mínimo era tudo o que eu tinha para oferecer naquele momento.

Nos últimos anos, quando pensava sobre esse relacionamento, lembrava sempre de o quanto ele havia sido isso ou aquilo. Essa é a parte fácil, colocar a culpa no outro. Mais de uma vez já o xinguei ou falei mal dele, porque assim ficava mais fácil abrir mão da minha própria responsabilidade em relação a como nosso namoro aconteceu. Por trás de todas essas minhas reações, uma firme tentativa de não assumir meu lugar nessa história.

Veja bem, eu não acredito em heróis e vilões nem em certo e errado. Não acho que eu tenha agido errado, tampouco que meu então namorado tenha agido errado. Acredito que nós agimos como sabíamos na época e o resultado foi o que foi.

Durante uma viagem de três meses para os Estados Unidos, nós brigamos por MSN porque eu estava indo conversar com um amigo na biblioteca. Meu então namorado insistia na ideia de que eu o trairia (as palavras “puta” e “promíscuo” eram frequentemente dirigidas a mim), o que nunca aconteceu. Eu terminei o namoro ainda antes de voltar ao Brasil.

Quando voltei, nos encontramos ainda uma vez. Ele estava muito triste e eu não fazia ideia de como confortá-lo, porque não desejava voltar a namorar. Ainda consigo visualizar sua expressão facial. Em grande parte, eu me sentia culpado por produzir aquilo tudo. Nossos contatos seguintes, por mensagens ou telefonemas, passaram a incluir quantidades cada vez maiores de gritos e xingamentos, então eu o bloqueei e desde então não respondo mais suas tentativas de contato.

Eu vivi esse namoro porque precisava de apoio, carinho e cuidado. Obviamente, isso não era um plano, mas sim a leitura que faço do relacionamento com a consciência de hoje. Em diversos momentos, eu recebi essas coisas. Recebi também muitas outras que prometi a mim mesmo que jamais receberia de novo, como ofensas e gritos.

Se eu pudesse voltar no tempo, agiria diferente. Por mais carente que eu estivesse, eu tinha ciência de que nossos níveis de afeto eram diferentes um do outro. Eu ainda não entendia que isso significava também um peso emocional sobre as experiências e expectativas – e é nesse ponto, em especial, que digo que fui cretino. Não porque decidi me aproveitar de alguém – não foi o caso –, mas porque falhei em perceber que eu estava de fato fazendo isso. O meu então namorado estava mais investido no relacionamento do que eu e nossas experiências juntos tinham mais peso para ele do que para mim. Enquanto isso me serviu, eu aproveitei, depois fui embora sem nem olhar pra trás.

Seria fácil dizer “ah, mas ele também teve responsabilidade nisso, ele escolheu, ele quis”. Porque sim, tudo isso é verdade, mas não muda o fato de que eu estava numa posição de poder sobre ele. Eu tinha mais experiência e me importava menos com o significado das nossas ações. Eu era corresponsável por aquela relação e a vivi apenas para cuidar das minhas necessidades.

Eu queria poder dizer que aprendi tudo isso após o término e que nunca mais faria o mesmo com outra pessoa, mas estaria mentindo. Precisei de mais um relacionamento longo com alguém para finalmente começar entender que minhas escolhas têm peso e impactam outras pessoas, e que estar investido pela metade em uma relação é uma forma de violentar a outra pessoa.

Algumas vezes, desejei esquecer essas experiências e o modo como, na época, decidi vivê-las. Hoje entendo que elas são parte do que me construiu para buscar o trabalho que desenvolvo. Ainda assim, eu sinto muito que tenha sido desta forma. Eu queria ter aprendido antes a ser mais cuidadoso e honesto com as pessoas para as quais abri as portas da minha vida.

Verdade seja dita, temo que eu vá passar o resto da vida aprendendo. Por um lado, está tudo bem, vida é isso. Por outro, espero machucar cada vez menos pessoas nessa trilha de aprendizados.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *