Um café da manhã para estimular o sensível

O celular vibrou no meu bolso pela terceira vez. Minhas mãos estavam ocupadas demais repousando sobre meus joelhos para que pudessem buscar o telefone, e mesmo que estivessem livres, meus olhos estavam vendados. A urgência em descobrir que mensagens, e-mails e notificações vibravam no meu celular estava brigando com a tentativa de meditar.

Estar presente é um tema que anda forte nas minhas reflexões e venho observando o quanto o celular pode se configurar como um problema. A cada nova vibração eu era retirado do momento e voltava a pensar em outros momentos e lugares. Quem estaria me ligando? Seria um cliente? Meu namorado? Que horas eram? Quanto tempo já havia se passado desde que me vendei?

Talvez eu deva começar por: o que diabos eu estava fazendo meditando vendado?

Um convite inesperado

Em 2014 participei do Estaleiro Liberdade, um curso de empreendedorismo por meio do autoconhecimento, e comecei a descobrir novas possibilidades de experimentar o sensível. Foi lá que juntei confiança para tocar meus próprios projetos e criei o Ninho de Escritores. Foi lá, também, que conheci a Dani Ayoub, que esta semana me procurou falando de um café da manhã vegano que ela estava propondo.

O café foi parte dos processos oferecidos pela Ecossistema Fio – que, nas palavras, da Dani, é uma “agência de criação e cultura que se dedica ao design de experiências e curadoria de conteúdo com foco em expansão da consciência, autodescobrimento e criação de novas formas de viver e se relacionar”.

Eu fui sem saber direito o que esperar. Na pior das hipóteses, pensei, experimentaria quitutes veganos e encontraria pessoas novas. Na pior, pior hipótese mesmo, os quitutes seriam ruins e as pessoas, péssimas.

O café estava marcado para acontecer no Hiperespaço, uma casa coworking espaço de eventos e empresas de transformação social. Mudou o nome, mas o endereço e a estrutura eram os mesmos da Laboriosa 89, que foi uma casa colaborativa que acolheu incontáveis projetos incríveis, dentre eles o próprio Estaleiro Liberdade, o Ninho de Escritores e reuniões sobre Comunicação Não Violenta.

Visitar o Hiperespaço, para mim, foi um convite para visitar também minhas memórias, o que já começou no caminho desde o metrô. O hábito transforma alguns lugares em espaços queridos, e quando passei por uma feira, não foi a banca de pastel que me fez sorrir. Foram as minhas memórias daquela banca de pastel, dos dias em que, mesmo atrasado, parei para me alimentar – mal, é verdade, algo que ficou ainda mais evidente quando me encaminhei para um café da manhã vegano.

Subi a Rua Laboriosa e desviei dos carros estacionados. O Hiperespaço fica ao lado de uma agência de publicidade, então é difícil estacionar por lá, em especial em dias de evento. Passei por uma árvore que, mais de um ano desde a última vez que a vi, continuava enrolada por barbantes coloridos. Pelo jeito, não eram apenas as minhas memórias que permaneceram.

Um café da manhã sensível

Em frente à Laboriosa ao Hiperespaço, o primeiro desafio do dia: portões fechados e uma plaquinha dizendo que a campainha estava quebrada. Como lidar? Eu seria obrigado a falar com alguém, a interagir. Para alguém que tem buscado conexão com outras pessoas, fico bastante incomodado quando preciso sair do meu mundinho particular e efetivamente conversar.

Consegui entrar porque uma moça veio abrir o portão. Enquanto descíamos as escadas para a sala onde aconteceria o encontro, falamos rapidamente sobre o espaço. Eu olhava Hiperespaço, mas enxergava Laboriosa. Esse é o poder das memórias – e também seu perigo, porque, como uma cortina, pode nos privar de enxergar o que realmente está à nossa frente.

Entrei na sala do encontro. Na entrada, uma mesa com comidas e o convite para se descalçar. À frente, um pano enrugado fazia as vezes de tapete e ocupava quase a sala inteira. Era como um mar revolto, e minha primeira reação foi procurar um jeito de alisá-lo, controlá-lo. Eu queria me sentir seguro – e estar à mercê dos eventos, sem saber o que viria pela frente, me oferecia muitas coisas, mas não segurança.

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Não que em algum momento eu estivesse inseguro, apenas não estava no controle. Aceitar a impossibilidade de manipular as ocorrências foi parte da experiência. Servi chá procurando açúcar, não achei nem fez falta. Comi uma uva esperando docinho, depois do poc veio um leve amargor e foi gostoso. Comi um bolinho achando que era doce e na verdade parecia tapioca (talvez fosse, pensando bem).

Pausa para dizer: as comidinhas maravilhosas foram oferecidas pelo restaurante vegano Biozone, que fica na Fradique Coutinho.

Na hora de comermos, uma instrução: a ideia era praticarmos o silêncio. Nos disseram: “fiquem vocês com vocês, olhem para dentro, sintam a comida, os sabores, as texturas”. Sentei no meu cantinho, bebi meu chá, comi os bolinhos, as uvas e o pão e refleti sobre cada sensação que experimentei. Incrível como, no meio das correrias de São Paulo, um café da manhã se transformou em uma oportunidade de explorar minhas percepções.

Depois do café, nos reunimos num jardim. Ficamos em círculo, fechamos os olhos e ouvimos enquanto uma moça nos conduzia por um processo de meditação. Em alguns momentos, eu ouvia e sentia. Em outros, pensava se todo o restante da humanidade estaria de olhos abertos me vendo e rindo de mim.

Voltamos para a sala e fomos convidados a nos vendar. Continuamos meditando, ouvindo, sentindo. Aí meu celular vibrou. Um outro tocou. Mais um vibrou. O meu vibrou outra vez. Alguém estava preocupado com isso? Além de mim, acho que não. O celular não era algo importante naquele momento, todas as preocupações do mundo exterior podiam esperar alguns minutinhos que fossem.

Naquele instante, eu estava lá, vendado, e era somente aquilo que importava.

Vendado, frágil, sendo conduzido por um processo de sensibilização. Se perceber é um treino e era isso que eu estava fazendo naquele momento. E daí se alguém me olhasse e risse de mim de olhos fechados? Riria por que motivo, aliás? Eu não sei de onde vem esse medo, mas ele é parte de mim, não tem dia que eu não conviva com ele. Hoje, vendado, à mercê do olhar alheio, fiquei de frente com esse medo de me expor. O que tenho medo que vejam em (ou de) mim?

Quando a vivência se encerrou e tiramos as vendas, tivemos a oportunidade de sairmos do “você com você mesmo” e compartilharmos como sentimos aquela experiência. Fiquei quieto, apenas ouvindo o que as outras pessoas tinham a dizer. Todas que falaram estavam tocadas, assim como eu.

Algo muito importante aconteceu quando as meninas do Ecossistema Fio decidiram propor um encontro: nós tivemos a oportunidade de experimentarmos uma manhã de reflexões que foram além do registro intelectual. Foi uma experiência sensível, do tipo que não precisa – e talvez nem possa – ser plenamente explicada com palavras.


 

Estou transformando em meu trabalho o registro narrativo de eventos, cursos e vivências. Se quiser um olhar de fora sobre algum encontro que tu pense em propor, vamos conversar para que eu faça esse registro <3


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