Breves histórias sobre confiança

Eu tinha uns 10 anos, ou seja lá qual idade a gente tem na quinta série, quando meu colega chegou para mim e disse “a única coisa que eu invejo em ti são teus olhos”. De um universo infinito de características que compõem uma pessoa – na época eu já conhecia algumas – eu tinha apenas uma coisa digna de inveja. Ou seja, eu era praticamente um nada, salvo apenas por alguns genes recessivos que tornaram meus olhos azuis.

Ainda  hoje não sei por que esse colega me disse isso. Ele era do tipo que tinha amigos, que fazia e acontecia, que os professores xingavam – sempre associei isso, durante minha vida de aluno, a uma certa ousadia merecedora de aplausos, uma anarquia ou liberdade de convenções e convencionalidades que valia ao menos um sorriso. Na verdade, não sei se ele tinha amigos, se apanhava em casa ou se invejava mais do que meus olhos, talvez também o fato de eu tirar boas notas e ser um aluno dócil. A verdade é que eu não sabia nada, mas acolhi e guardei em mim as palavras dele – ao ponto de acordar em alguns domingos pensando nisso.

Sempre tive uma relação de amor e ódio com esse tipo de colega. Lembro de um momento, vários anos depois, no ensino médio, em que eu estava na aula de Artes conversando com um menino. Ele era uma versão crescida desse outro colega, mas do tipo legal: andava com os carinhas que riam de mim, mas me tratava bem – e só agora eu percebo a ironia disso. Nem sei sobre o que a gente conversava – a memória tem a estúpida tendência de perder esses detalhes –, mas lembro bem da reprimenda da professora dizendo que eu não queria me tornar como ele, que eu era um bom aluno. Ela estava errada.

E daí teve a vez em que roubei duas moedas de cinquenta centavos da locadora do meu pai. No carro, eu disse que as havia achado no chão. Meu irmão, que havia fechado a contabilidade daquele dia, sabia que faltava exatamente um real, exatamente duas moedas de cinquenta centavos. No carro, ele me confrontou, e eu disse que não, que eu havia achado as moedas no chão. As duas, juntinhas. Meu pai interveio e disse que “se ele está dizendo que não pegou, ele não pegou”. Aquilo encerrou o assunto, mas nós três sabíamos que eu tinha roubado.

Minha intenção era comprar, na papelaria ao lado, um bloco de registro de compras. Não faço ideia de por que eu queria aquilo, mas antes de comprar me dei conta que não seria inteligente gastar o dinheiro roubado no vizinho da locadora do meu pai, já que eles conversavam. Eu já tinha alguns momentos de esclarecimento naquela época. Não faço ideia de quantos anos eu tinha, acho que precisaria perguntar ao meu pai até quando ele continuou com a locadora. De todo modo, eu era novo, talvez tivesse os mesmos 10 anos da outra história.

Fico me perguntando por que meu pai disse aquilo. Pensei em perguntar a ele inúmeras vezes, mas sempre fui impedido pela vergonha. Hoje, entendo aquilo como um ato de confiança: não de que eu estivesse falando a verdade, mas de que eu aprenderia com aquele momento e, de alguma forma me arrependeria. Ou falaria a verdade depois. Eu nunca falei, tampouco faço ideia do que fiz com o dinheiro. Mas sinto que, de uma maneira discreta e contínua, aquele evento reverberou durante toda a minha vida construindo a minha relação com o mundo.

De todos esses casos, há uma coisa em comum que segue sendo o eixo de muitas histórias mais: eu não fiz nada. Fiquei quieto, parado, sem intervir. Deixei passar, em silêncio. Não falei nada para meu colega, nem para a professora, nem para o meu pai. Não revidei, não demarquei meu território, não disse a verdade. Apenas deixei acontecer.

Hoje, acredito que a confiança para agir vem da clareza de quem somos e do que queremos. Eu tenho dificuldade em alcançar essa clareza, então acabo me contentando com a passividade. Eu não sabia nada da vida quando meu colega falou da minha única característica invejável. Eu não tinha ideia de que estava tudo bem em me identificar com o colega que aprontava. Eu certamente não imaginava que podia falar a verdade e o mundo não acabaria.

Somente quando as coisas ficam claras é que consigo agir. Isso certamente explica o tempo que passo trancado em meu quarto.

Não penso que essas experiências de infância sejam determinantes para a minha personalidade. A repetição delas, sim, mas considero esses pontos como importantes porque dizem muito sobre quem eu me tornei. Eu queria ser diferente, mas não era, mas não sou. Querer ser diferente só acontece sendo.

O bom é que sempre há espaço e oportunidade para novas histórias.

Eu queria terminar com uma pergunta, mas isso talvez sugerisse que eu não tenho clareza nem confiança no que estou dizendo. E eu tenho, de verdade. Escrevi esse texto porque precisava processar alguns acontecimentos da vida. Publiquei porque, das mesmas histórias, podem nascer outras interpretações e conversas. Uma parte de mim quer voltar ao passado e resolver essas histórias, dizer ao colega que eu tenho mais a oferecer, que eu não desejo ser o aluninho dócil ou que eu roubei sim e acho errado. Outra parte me diz que isso é bobagem, não há retornos ao passado e se eu voltasse seria apenas para errar de outro jeito. Porque a gente erra e aprende para errar de outro jeito, ou não aprende e erra tudo igual de novo. A vida é isso e há muito pouco que a gente possa fazer para escapar.

Ainda quero uma frase de efeito para terminar, já que não encerrarei com perguntas, mas de que adiantam frases de efeito se o importante é a experiência e as histórias que contamos delas?

(Veja só, uma pergunta de efeito!)

2 comentários em “Breves histórias sobre confiança

  1. Eu posso me identificar com esse e com cada um de seus posts que trata de assuntos parecidos. Além de ser uma leitura agradabilíssima, ler o texto de outra pessoa e se sentir você mesmo com 10 anos refletindo sobre como lidava com a vida é incrível e assustador ao mesmo tempo. Havia o garoto popular e bagunceiro e eu nunca fui qualquer dos dois. Os entraves sexuais e as fobias sociais. Incrível.

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