Amor no Creative Mornings

Quando o tema de julho do Creative Mornings foi anunciado como Love (em inglês, amor), me peguei refletindo sobre que tipo de amor o Gustavo Gitti, palestrante da vez, trataria. Amar é um verbo complexo que se traduz em incontáveis formas de agir com os outros, muitas das quais são questionadas enquanto “amor” (eu mesmo já escrevi sobre o que chamei de “amor entre aspas”).

Para pensarmos sobre as ideias possíveis de amor, que tal começar pelo próprio Creative Mornings, um evento “feito no amor”? Toda a equipe de produção é voluntária e se organiza na base de patrocínios e doações. A minha participação, bem como a da Vivian Dall’Alba, que tem feito as facilitações gráficas, também começou espontânea. Por amor a algo que é maior que a mim mesmo, passei a contribuir com a escrita dos meus registros narrativos.

(Pausa para comentário: a gente entrega de graça, mas às vezes a vida recompensa. A Cocriando Natura agora patrocina o Creative Mornings e está oferecendo apoio financeiro para o projeto, inclusive para Vivian e mim.)

(Pausa para comercial: estou adorando fazer registros narrativos de eventos e cursos. Quer que eu faça um para o teu evento? Vamos conversar!)

Antes da fala do Gustavo começar, a Mari Camardelli, fundadora da Altos Eventos e host do Creative Mornings em São Paulo, disse algo que simboliza o encontro inteiro: “obrigada, vocês vieram, vocês são incríveis”. Talvez por Gustavo ser colunista da Vida Simples e bem conhecido na internet, este foi o encontro com mais participantes dentre os quatro primeiros (os anteriores foram sobre riscos, realidade e paradigmas quebrados).

Ao contrário do que aconteceu nos eventos anteriores, Gustavo pediu à Mari que não o apresentasse. Achei positivo, pois uma história de vida cheia de conquistas só me faria idealizar o palestrante, criando uma barreira entre as ideias e a minha relação com elas. Eu já estava lá para ouvi-lo falar; saber mais sobre seu percurso até aquele momento, salvo se relacionado à palestra, pouco acrescentaria. No máximo, me ajudaria a desenhar para ele uma ilusão de autoridade.

Gustavo começou sua palestra chamando nossa atenção para uma probabilidade: “pelo menos um de nós em breve estará sofrendo por amor”. Embora todos ali parecêssemos felizes, bonitos e alinhados, a vida é uma montanha-russa fluida e descontrolada. Ela vai mudar, aceitemos ou não. Quando entendemos o amor como algo que podemos exigir dos outros – nem que seja para justificar nosso próprio afeto –, então é certeza que nosso carrinho sairá dos trilhos.

Para criar uma base, Gustavo compartilhou uma história sobre um casal de velhinhos que moravam juntos em uma casa de apoio. Quando a mulher ficou doente e precisou ir ao hospital, o homem sentiu que não aguentava ficar longe dela, construiu uma bomba e foi ao hospital para que ambos morressem. Ele falhou; apenas ela morreu. Desavisados dirão que ele a matou por amor, mas não. Amar alguém é outra coisa.

Somos ensinados sobre o amor romântico, essa ideia louca de que existem metades de laranja espalhadas pelo mundo esperando para se encontrarem e se preencherem. Essa ideia de romantismo sequer deveria ser chamada de amor, já que está mais para um contrato de relações de poder do que uma relação que preze pela outra pessoa. Nas palavras do Gustavo, o dito amor romântico é uma sacanagem, pois oferece à outra pessoa uma coisa que ela não tem e sem a qual sofrerá.

O que há para vivermos em lugar desse romantismo?

Gustavo trouxe dez conceitos (na forma de qualidades) que podemos aplicar em nossas vidas, ou pelo menos tentar. Depois da palestra, ele me contou que eles correspondem às quatro qualidades incomensuráveis e às seis perfeições (então já fica a dica para pesquisar e aprender mais).

facilitação gráfica vivian dallalba gustavo gitti

Facilitação gráfica de Vivian Dall’Alba. Acompanhe-a no Instagram.

Amor genuíno

Diferente do sentimento informado pelo romantismo, o amor genuíno é o desejo de que o outro seja feliz. A distinção já fica clara desde o início: explodir outra pessoa não é querer a felicidade alheia. É, no máximo, um ato de extremo egoísmo, de pensar somente em si e nas dores que se consegue ou não suportar.

Esse tipo de amor aponta para uma prática que ajude os outros a florescerem. Envolve encontrar no outro algo que já está ali e fomentar a conexão, ampliar as vidas. Trata-se de um jeito sustentável de se relacionar, em que um não absorve a energia do outro, mas contribui para que ela flua melhor.

Quer amar? Então pergunte: como eu posso te ajudar? Simples assim, a vida dos outros começa a ser nutrida e a crescer para ser mais do que é.

Amar genuinamente e irrestritamente é o caminho para a felicidade. Se queremos mal a alguém, isso vai nos perseguir e perturbar. O mesmo vale quando temos uma ideia negativa sobre alguém. Se considero uma pessoa desinteressante, por exemplo, estou me colocando em uma prisão. Há uma fábula budista que fala de dois monges numa trilha. Eles encontram um rio e à margem do rio, uma mulher. Um dos monges se oferece para carregá-la e a ajuda a atravessar o rio. Horas depois, o outro monge pergunta: “não devemos tocar mulheres, por que você a carregou?”; o outro responde: “eu a deixei na outra margem do rio, por que você a está carregando até aqui?”.

Nós carregamos conosco aquilo que pensamos dos outros.

Mas e se for uma pessoa difícil, aquela que a gente não gosta, ou que age de modo que nos traz desgosto? Busque se relacionar com as qualidades desta outra pessoa. Todo mundo tem qualidades, nem que seja em um mísero momento da vida. Encontre neste momento o espaço para depositar seu amor. Se nos relacionarmos com as qualidades, não teremos adversários.

Compaixão

Se o amor genuíno é querer bem, a compaixão é o desejo de que o outro não sofra. Praticar a compaixão envolve compreender que as pessoas não são as coisas negativas que por vezes manifestam. Todas as pessoas são fundamentalmente livres e, quando as enxergamos desta forma, podemos ajudá-las a superar os obstáculos que por ventura as impeçam de exercer suas potencialidades.

Alegria

Se nos pensarmos como indivíduos, somos pequenos e chatos. Contudo, nós somos parte de um mundo gigantesco e complexo. Uma qualidade fundamental, portanto, é encontrar alegria na alegria de outros, na beleza do céu, na formiguinha com sua folha. Quando uma amiga engravida e eu entendo que somos parte de uma mesma grande vida, de certa forma também eu engravidei, pois sou parte deste processo.

Equanimidade

Nós costumamos separar as pessoas de acordo com a utilidade que elas têm para nós. Se nos fazem bem e compartilham experiências de vida conosco, são amigas. Se nos ofendem, são inimigas. Se nenhum dos dois, somos indiferentes a elas.

Ocorre que todos somos seres livres num espaço amplo. Exigir ou esperar algo dos outros é um convite à decepção, porque confere a outros o poder sobre nossa felicidade. Mesmo aquela pessoa que chamamos de namorada ou namorado nada mais é que uma pessoa livre que decide estar ao nosso lado todas as noites (ou muitas, ou só algumas, depende das experiências de cada um). Agradeça!

Parece estranho tratar alguém que a gente nunca viu do mesmo jeito e com o mesmo carinho com que tratamos um amigo de anos? Pergunto: por quê? O que falta para removermos o abismo que inventamos entre conhecidos e estranhos?

Generosidade

As relações entre pessoas não são equilibradas. Algumas vezes, uns oferecem mais que outros. E tudo bem. Generosidade é doar sem expectativa de ganhar algo em troca. É encontrar alegria no ato de dar(-se) ao outro, de oferecer algo de bom.

Quando damos um presente a alguém e ficamos cuidando se a pessoa gostou, se ela vai aproveitar bem, estamos nos prendendo na resposta do outro. Por que fazer isso, se entregamos o presente à outra pessoa?

(Nota: é fácil pensar que generosidade envolve aceitar opressões sistemáticas, já que as relações são e sempre serão desiguais. Não se trata disso. As opressões sistemáticas como machismo, racismo e homofobia de forma alguma são generosas, amorosas ou, principalmente, equânimes.)

Moralidade

A prática das qualidades citadas até aqui aponta para uma moralidade, um cuidado para não causar sofrimento aos outros. Sempre quando chegamos a algum lugar, podemos nos perguntar: “como eu posso ajudar?”, “de que forma posso contribuir com o que já existe aqui?”.

Um exemplo de Gustavo me deixou bastante afetado. Quando ligo para meu namorado, ele está em outro lugar, em outro contexto, vivendo outras relações. Ele não está como meu namorado, mas minha ligação interrompe o que ele estiver vivendo para “puxá-lo” de volta ao lugar de namorado. Tem algo de urgente nas ligações, que às vezes se derrama nas mensagens, que sugere uma requisição de presença imediata, independentemente do fluxo do outro. É algo a ser pensado.

Paz (ou paciência)

Já que controlar os outros é impossível – e quando tentamos fazer isso, nos entregamos de bandeja –, devemos treinar nossa capacidade de ficar quites com os outros. Nunca seremos felizes exigindo o que quer que seja dos outros. Nesse exercício de paciência, podemos oferecer tempo para que as pessoas se transformem em versões melhores de si mesmas.

Alguém se irritou por pouco? Vamos oferecer dez anos para que se transformem. Se daqui a dez anos isso ainda não tiver acontecido, que tal vinte? Ter paciência nos deixa de coração tranquilo, sem apertos nem constrições.

Energia constante

Já que estamos livres do ciclo de expectativas e exigências, sobra-nos energia para dedicarmos à nossa vida, para seguir em frente apesar dos sentimentos.

Concentração

Se temos energia para estarmos presentes, podemos parar e aproveitar o agora. As pessoas estão sempre a caminho para outros lugares, como caminhantes na baldeação do metrô. Sempre de passagem, sempre entre o de onde saí e o para onde vou.

Com a concentração e a presença caminha também a atenção. Somos seres distraídos, em poucos segundos costumamos nos dispersar. Decorrem daí duas ideias: (1) não vamos esperar demais da atenção das pessoas, tadinhas!, e (2) que tal treinarmos nossa atenção? O maior presente que podemos oferecer a alguém é nossa atenção.

Sabedoria

Nas palavras do Gustavo, sabedoria é “olhar isso aqui e não comprar nada”. Em outras palavras, significa entender que as relações são permeadas por coisas mágicas, nada sólidas. O próprio Creative Mornings não existe, é apenas uma pegadinha para juntar pessoas. Buscar sabedoria é tentar perceber a vida para além dessas ilusões, ganhando clareza sobre como a mente funciona.

Não tente ser interessante

Durante toda a fala do Gustavo, uma reflexão emergiu: não tente ser interessante. Escute aos outros, interesse-se pelo que os outros têm a dizer, pelo que fazem, vivem, sentem, querem. Seja espelho para que o outro enxergue a si mesmo. Quando damos espaço ao outro, todo mundo fica interessante, menos nós mesmos. E tudo bem, porque é justamente isso que procuramos. Queremos pessoas interessadas, capazes de nos oferecer conexão.

Se falo de mim e tu, de ti, não nos conectamos. Então venha me falar de ti e eu te escutarei.

Algumas referências

Quando a palestra terminou, fui conversar com o Gustavo e pedir algumas referências para compartilhar. Ele foi além e me mandou um e-mail recheado de indicações, que agora repasso.

Livros

  • Um coração sem medo (A fearless heart), de Thupten Jinpa
  • A revolução do altruísmo, de Matthieu Ricard
  • No coração da vida, de Jetsunma Tenzin Palmo
  • Lovingkindness: the revolutionary art of happiness, de Sharon Salzberg
  • Os lugares que nos assustam e Quando tudo se desfaz, de Pema Chodron
  • Além de religião, de Sua Santidade o Dalai Lama
  • Felicidade genuína e The Four Immeasurables: Practices to Open the Heart, de Alan Wallace
  • Para abrir o coração, de Chagdud Tulku Rinpoche

Vídeos

O Gustavo na internet

 

Sobre os registros narrativos

Eu vou a eventos e escrevo sobre o que vivo e aprendo. Se tu entende que faz sentido para teu curso ou evento receber e compartilhar um registro narrativo assim, por favor entre em contato comigo. Tu pode ler meus registros narrativos anteriores aqui no blog.

Obrigado!


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