Amo você como uma estratégia

A prática da comunicação não-violenta (CNV) se apoia em um pressuposto: tudo o que fazemos, fazemos para atender a uma ou mais necessidades. Mais do que uma verdade, esse pressuposto é uma forma de ver as coisas.

Thom Bond, do curso de compaixão online, diz que ver as coisas com essa perspectiva ou consciência o ajuda a experimentar mais conexão e compaixão. Eu sinto o mesmo e concordo também com Kit Miller, que diz: “CNV é um processo de tomada de consciência disfarçado de ferramenta de comunicação“.

Em outras palavras, não é sobre como a gente fala, mas como a gente percebe e pensa sobre as coisas.

Outro dos pressupostos que organizam a CNV é: existem dez mil estratégias possíveis para cuidar de cada necessidade

Se tenho necessidade de comida, posso comer pão, macarrão, em casa, na rua etc. Se tenho necessidade de apoio, posso encontrar nos meus amigos, mas também em professores, às vezes com estranhos na rua etc.

Daí a frase-título: amo você como uma estratégia. Esse é um modo bastante consciente de dizer: amo você enquanto você me ajuda a cuidar das minhas necessidades. Se minhas necessidades não forem atendidas na relação com você, acho importante me perguntar o que estou fazendo nessa relação.

“Ah, mas tem relações das quais não podemos sair”, alguém pode dizer. Discordo. Existem relações que podem ser mais desafiadoras para desfazer ou se afastar, mas não que não podemos sair. Escolhemos ficar porque não queremos lidar com as consequências possíveis de um afastamento.

Essa é a grande questão da comunicação não-violenta: entender que todos temos escolhas.

O melhor jeito de informar essas escolhas é avaliar se elas estão cuidando bem das minhas necessidades, porque a responsabilidade de cuidar delas é 100% minha. Ser minha responsabilidade quer dizer apenas que o movimento de comunicar, criar condições, agir, é meu para cuidar. Não quer dizer que preciso fazer sozinho.

Se estou em um relacionamento que não atende às minhas necessidades, não preciso ficar nele. A frase amo você como uma estratégia me lembra disso porque sei que cada necessidade pode ser atendida por dez mil estratégias diferentes. Investir em uma relação específica é uma dessas estratégias, mas não a única disponível.

Se você escolher ficar em uma relação, que seja realmente por escolha – e não porque você supostamente não tem outra escolha disponível.


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