A CNV é sobre como estar no mundo

Depois que entendemos que somos 100% responsáveis por cuidar das nossas necessidades, é muito fácil pular para a conclusão de que, portanto, devo fazer o que eu quiser, quando eu quiser, sem me preocupar com os outros – porque eles é que são responsáveis pelas necessidades deles.

Recentemente, um moço com alguma prática de CNV me lançou uma questão: se eu estivesse num evento fechado e sentisse muita atração por alguém num dado momento, mas tivesse um acordo de relacionamento monogâmico fora dali, o que eu faria?

A minha resposta foi: faria nada que rompesse com meu acordo prévio. Eu coloco meus acordos acima dos meus desejos do momento. Acredito que a confiança é a base fundamental da sociedade.

A resposta dele foi outra: a de não querer desrespeitar a sua “autenticidade”, o que ele estava sentindo e querendo no momento. Depois, cuidaria da relação já existente, conversaria sobre isso etc.

O que me interessa aqui não é julgar a minha resposta como moralmente correta e a dele como errada. Pelo contrário: entendendo a CNV é um processo de conscientização, o que quero destacar é o ato de entrar em acordos que não vamos cumprir – quer saibamos disso, quer descubramos durante a vida. Se a pessoa quer viver seus desejos conforme eles surgem, então a melhor estratégia seria não entrar em relações que pedem que esses desejos sejam controlados. Fazer isso e depois usar o argumento da autenticidade seria no mínimo desonesto consigo mesmo.

A comunicação não-violenta que eu estudo e pratico não é apenas sobre conscientização individual, mas também sobre como estar no mundo. É um código de conduta, por assim dizer.

Se tenho consciência de que uma dada estratégia minha desatende as necessidades de outras pessoas, está tudo bem segui-la mesmo assim? Afinal, quem é responsável por essas necessidades são elas e não eu?

Não tenho uma resposta pronta. Acredito que assumir responsabilidade pelas nossas próprias responsabilidades já é um passo gigantesco na construção de um mundo melhor para todos, mas precisamos parar aí? 


Also published on Medium.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *